quinta-feira, 29 de março de 2018

Lá volto eu lá atrás


A Páscoa  tem momentos mágicos de renovação e de fé que sempre me comovem. Vivi desde pequena as tradições da aldeia, participei nelas e gravaram-se em mim para sempre. 
No dia de amanhã pelas ruas da procissão havia sempre imensas mulheres vestidas de negro em profundo recolhimento que andavam sozinhas rezando. A minha avó ensinou-me a oração e não tendo a certeza se estará toda bem dita  e completa  aqui fica a tradição oral depois de quase 50 anos:

Lá  iremos, lá remos ás portas do paraíso
Abertas as acharemos
as do Inferno, fechadas
parecem almas queimadas.
Nossa senhora que as viu
O seu coração lhe pediu.
Foi para o seu amado Filho:
Ó meu amado Filho
tira as almas do inferno que já lá parecem tanto mal!
Ó minha Senhora Mãe
elas que lá estão algum merecimento terão.
quando eu vim para este mundo
mais meu primo S. João
deixei.lhe os bois e as vacas para lavrarem o pão
o sol para de dia
a lua para de noite
 que queriam elas mais?
Quem esta oração dizer quatro vezes
na sexta feira santa na rua da procissão salvará quatro almas:
a primeira será sua
a segunda de seu pai
a terceira de sua mãe
e a quarta do seu parente mais chegadinho
ámen.

De um inocência tão mágica e tão pueril que me encanta ainda nos dias de hoje!

Estou furiosa


Andei toda a tarde  nisto! Quando algo que eu considero errado não depende de mim e eu tenho de o deixar errado com as consequências que daí advêm.
E depois perdeu-se uma oportunidade única de uma lição viva de bem fazer, de bem ser e de bem decidir por quem a poderia ter dado. Magistralmente! Mas não foi assim!
O dia ficou estragado. Não apenas o dia!
Danada!

quarta-feira, 28 de março de 2018

A vida dos alunos


Talvez eu tenha uma visão distorcida das coisas. Talvez!
Normalmente o que chega ao meu conhecimento são os casos mais graves e mais difíceis de resolver.
Mas que há alunos com vidas super difíceis há! E muitos!
Olho para eles pelos corredores da escola, sentados em sala de aula com o olhar perdido, ou a fazerem asneiras e penso o que se passará nas suas almas a maior parte do tempo. 
Que concentração será possível, quando se tem mães doentes, ou pais ausentes, ou  problemas de dinheiro que não aparece de lado nenhum, ou gritos logo pela manhã, ou distúrbios mentais não controlados ou uma mesa vazia de tudo para o pequeno almoço.
Que vontade terão de aprender capitais onde nunca irão, ou equações que nunca lhes servirão para resolver estes problemas mais terrenos que têm pela frente. 
Sei que somos nós que temos de dar sentido a isto tudo e encontrar o equilíbrio desejável e dar-lhes aquilo que os poderá fazer avançar. Não podemos baixar os braços. 
Mas que é um trabalho muito difícil, que exige emocionalmente muito de nós como pessoas e como profissionais, lá isso é. 
Nestas alturas em que se avalia cada um deles juntamente com a sua vida e a sua condição uma certa angustia toma conta de mim!

sexta-feira, 23 de março de 2018

6ª feira à noite


Tirar o gato, substituir a cerveja e as batatas fritas por chá e bolachas de sementes de papoila, mudar a cabeleira da senhora para loiro et voilá!
A cor do sofá mantém-se. As solas dos sapatos estão em melhor estado!

quinta-feira, 22 de março de 2018

Coisas que não me saem da cabeça


Há dois dias que ando com esta canção na cabeça e me aparece do nada logo pela manhã:

Na serra ou no jardim vou plantar uma semente
Olaré sim, sim, senhor ambiente...

Este era o princípio de uma grande canção ambiental criada há muitos anos atrás por uma colega de Educação musical. Por esses anos eu orientava o estágio de uma colega, a Margarida, uma docente super especial, super organizada, super inteligente com quem aprendi muito. 
A Margarida tinha uma direção de turma e fez com os alunos um projecto multidisciplinar que envolveu todos, trouxe parceiros à escola para falarem e discutirem temas ambientais e o culminar foi uma caminhada à serra D'Aire com todos os alunos e professores para podermos observar a flora local tão rica  e única como as orquídeas selvagens já floridas naquela Primavera.
Talvez por se falar tanto em transversalidade, em flexibilização, em assuntos que mesmo sendo transmitidos por palavras novas só representam uma leve névoa do que já se fez nas escolas há muitos anos atrás, ando farta de novas ideias de mentes iluminadas que nunca viveram o dia a dia das escolas  e de novas reformas.
Esta canção faz-me ver os alunos, agora de certeza já homens e mulheres deste país, a lembrarem-se do que representou para eles aquele projecto liderado por uma professora inteligente que soube cultivar neles as competências ambientais em falta. 
Não me sinto ainda qual velho do Restelo! Só um pouco cansada de tanta mudança que não o chega a ser! De tanta ignorância do que é uma escola e do quão difícil é educar jovens nos tempos que correm a maioria das vezes bloqueados emocionalmente pelo que se passa fora dos muros da escola. 
É necessário muito bom senso, uma mão cheia de capacidades interpessoais, uma boa dose de psicologia mas, acima de tudo, uma humanidade que nos permita ver a pessoa por detrás de cada acto de rebeldia, de respostas tortas, de caras fechadas e transportá-la meigamente para um lugar seguro onde possa desenvolver todas as suas capacidades em segurança.
Reformas? Alterações? Flexibilidade? Palavras vãs quando não acompanhadas pela inteligência e argúcia de quem os conduz através dos anos mais importantes das suas vidas.
Margarida: tenho saudades tuas, do teu profissionalismo e do teu sorriso lindo que antecipou a transversalidade e abraçou a ideia de ensinar integralmente os meninos que tinhas na Tua frente. Nessa altura ainda não conhecias, com toda a certeza o chavão "emagrecimento do currículo" e outros que tais que fazem perder tempo mas não acrescentam nada, Mesmo sem eles, como tantos outros docentes, deste o teu melhor.

Na Serra ou no Jardim vou plantar uma semente...

quarta-feira, 21 de março de 2018

O meu sinónimo de Primavera?


Meter uma mala no carro, encher o depósito de gasolina e partir por entre campos de papoilas sabe-se lá para onde e por quanto tempo. Com sol e boa companhia. Muito riso, muitas descobertas e uma sensação de liberdade que me anda a fazer falta. Parar quando o sol se fosse e encontrar lugares novos e bonitos para jantar e pernoitar. No dia seguinte, continuar a viagem.
Só mesmo isto!

terça-feira, 20 de março de 2018

Coisas...


Ao final da tarde um velório da mãe de uma colega.  Sentou-se na entrada um grupo de colegas quase da mesma idade que deu em recordar tempos de escola, uns em colégios, outros em escolas públicas e as  reguadas e sovas (sim, sovas a valer) de professoras satânicas de há muitos anos. Um deles, com uma capacidade invulgar para contar as coisas com muita graça, com o  pormenor certo,  facilitando a visão do quadro, ou não fosse ele professor de História!
E eu ali a imaginar  uns miúdos e miúdas pequenos nas maiores tropelias e ataques à autoridade, a visualizar os "super ratos", batas atadas ao pescoço com o resto a fazer de capa a descer rampas de lama à sexta feira à tarde, as tascas com caramelos, os baloiços que pais carinhosos construíam para os filhos e a professora -" alguma coisa anda a distrair o seu filho!" Mas o quê? Interrogava-se a mãe. Não havia televisão, nem rádio, nem telefone...nem...nem... afinal era só o baloiço que os pais tiveram o bom senso de não tirar. 
O que eu me ri. Para dentro claro que estávamos num velório. 
Depois, na despedida, bastou baixar a cabeça para perceber a idade da senhora que falecera. Uma tontura séria tomou conta de mim.
 Foi castigo divino! Só pode!

segunda-feira, 19 de março de 2018

Se eu soubesse que o tempo contigo tinha um fim...


Tinha passado mais tempo a contemplar o teu rosto, a fazer-te rir, a conhecer-te melhor do que tu te conhecias!
Se eu soubesse, tinha deitado mais vezes a minha cabeça no teu colo, tinha-te dado mais abraços, tinha esticado mais vezes os meus braços para ti só porque sim quando entravas na cozinha sorrateiro com a tua bengala e o teu sorriso estampado. 
Se eu soubesse, tinha puxado mais conversas, mais risos, tinha almoçado mais vezes contigo no teu restaurante preferido, tinha entrado em sintonia com os teus silêncios e teríamos ficado só nós dois a olhar-nos na alma e a sentirmos o quanto nos amávamos. 
Se eu soubesse que esse tempo tinha fim meu pai, se calhar fazia tudo igual, porque o meu amor por ti foi sempre um pouco um amor em espelho porque ainda hoje tu és eu e eu sou tu!
Se seu soubesse meu pai... se eu soubesse que estas saudades aumentam a cada dia que passa e não há nada que me faça esquecer de ti...
A tua menina precisa mesmo muito de ti!

quinta-feira, 15 de março de 2018

Coisas que gosto de fazer.


Tenho os armários cheios! Pronto, confessei! Muitas  carteiras de boa qualidade guardadas em sacos de pano e cheias de papel para não deformarem mas que no meu íntimo sei que não vou voltar a usar!
Lembram outras vidas, outros dias, outras rotinas e estão ali guardadas como um poço de recordações que gosto de ter.
Hoje recebi a notícia de um mercado de roupas e acessórios, organizado por amigas, que tem por lema" recicle o seu armário" e não resisti.
Tirei e embalei todas as malas e peças de vestuário que não utilizo há mais de dois anos.  Pelo meio, ainda descobri outros modos de usar umas peças que me apaixonaram na altura e que por qualquer razão nunca usei. Descobri que numa ida à costureira sou capaz de arranjar ali um casaco 5 estrelas! Voltou para o armário! 
Fui depois aos lenços, echarpes e  afins. Sobre estes tenho uma ideia muito certa daqueles que me fazem sentir bem ou muito bem e dos que nem por isso. Os "nem por isso" saíram todos. 
Ficaram ainda por fiscalizar os colares, brincos, pulseiras e afins! 
Senti um certo alívio! 

quarta-feira, 14 de março de 2018

Hoje foi um dia mau


Por nada de especial, por pequenos pormenores  e por tudo. Dias em que parece que tudo se alinha e ficas com uma clarividência que te deprime.
Dias em que a pequena bolha de esperança que te faz permanecer à tona rebenta e puf... ficas sem bóias e afundas.
Lá mais para a tarde começas a sentir um certo mau estar, um estado que não te deixa trabalhar, uma impaciência, um desespero que te faz recolher a casa, ao teu porto de abrigo com um nó na garganta e esperas que chegue o tempo de adormecer.
Amanhã é outro dia.