quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Traços



Viagens. Noite. Procura do colo materno que já não existe. Resignação. Conversas que não chegam ao outro. Saudades, muitas saudades, do meu pai. Um entendimento dele como pessoa que não tive enquanto era vivo. Ouvir o som da voz dele no cérebro e sentir que é o último e mais forte elo ao pai. Não querer esquecer. Ter muito medo que um dia já não seja capaz de o ouvir em mim. Chegada à montanha pela noite dentro. A casa fechada que se abre e partilha o frio que lá vai dentro. Lembrança de outras chegadas. Tristeza. Romagem ao cemitério. A imensidão da montanha que abafa o som dos passos e da labuta. Voltar à infância nos rostos dos que me conhecem desde sempre. Ouvi-los contar histórias em que eu entro. Solidão. Velhice estampada em tudo o que encontro. Rezemos pela memória dos que o mundo já esqueceu. O Padre acompanhou a romagem no silêncio da penumbra que cai. Momentos de profunda falta do meu pai na minha vida. Estranheza de nós todos em volta de uma sepultura onde ele jaz. Amor profundo a tudo o que ele foi. O silêncio e o som da campainha que imprime ritmo aos pensamentos que voam. Um punhado de gente com tanto em comum como o sítio onde nasceram e cresceram. Atirados para longe e dispersos pela vida ali voltam todos os anos para sentirem, mais uma vez, o cheiro da terra que os espera.
Regresso. Imensidão do caminho. Chegada.
Hoje, foi outro dia.