segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Quase, quase


Não é bem assim, mas para a sobrevivência necessária tenho de pensar que é assim. Um mês e tal de espera para partir para uns dias cheios. Até lá, muito ainda para resolver e fazer.
A esperança é sempre a última a morrer.

A Luisinha fez anos


E um grupo de amigas foi lanchar com ela. Tanto riso e tantas histórias destes anos e anos todas juntas! A Luísa tem graça a contar histórias. Tem um sentido de humor calmo e alegre como só uma alentejana verdadeira sabe ter. É calma e tem bom senso. Faz observações perspicazes  sobre a vida  e as situações que vão acontecendo. Gosto de lhe contar o que me vai acontecendo por duas razões: primeiro porque sei que o que conto nunca sai dali. É de uma lealdade e verticalidade sem mácula. Segundo porque me faz sempre ver as coisas de outros ângulos que, curiosamente, são muitas vezes parecidos com os ângulos da minha irmã.
Foi um final de tarde super alegre e bom. As nossas vidas, por momentos, ali cruzadas em histórias e acontecimentos passados, cheios de peripécias e aventuras, apesar de o passado recente me ter afastado fisicamente destas amigas com quem sou sempre a 100%.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Coisas que penso

Entrega dos diplomas aos melhores alunos do ensino secundário. Bom ambiente. Famílias felizes, com vontade de recordar em fotos estes momentos do sucesso dos filhos e deles como educadores. 
É quase impossível não voltar atrás e relembrar os tempos em que eu também por ali estava, peito cheio de orgulho esquecendo-me, ou não sabendo ainda, que  estava ali só o princípio do que eles haveriam de construir com suor, trabalho e momentos bons de convívio. 
Olho para aqueles miúdos que estão agora num primeiro ano da universidade e sei o que eles ainda não perceberam: que para além das notas, estão eles, está tudo aquilo que estão dispostos a viver e a aprender, está a educação que receberam, estão os valores que o ninho lhes deu, está o trabalho e a aprendizagem, um pouco de sorte, e uma vontade férrea de se ser inteiro.
Naquele tempo quando os meus subiram ao palco eu não sabia. Como hoje os pais e filho felizes também não sabem.
Talvez seja mesmo isto o mistério do que se chama viver. 
Um caminho longo e profícuo e sorvam estes próximos anos o melhor que puderem. 

O caminho para a felicidade


Imagina só que hoje é o teu último dia.
Pensa: e se eu morresse hoje?
Este é o caminho para se ser feliz!
Dito por quem sabe!

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Está alguém em casa?

Cheguei!
Mãe não acendeste ainda o lume para me receber? Está muito frio cá dentro! Corre! Vai buscar a lenha!
E tu pai  por onde andas? Não sabias que estava para chegar? Aonde posso confirmar os sons que ainda oiço: menina Eulália, como vai?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A lareira apagou-se


Foram dois dias muito bons. Filho mais novo em casa. As piadas de outrora. Os mimos que eu gosto de dar. O acordar de madrugada e sentir que tenho a casa cheia porque num dos quartos está ele. Pensar logo de seguida: Como vou aguentar a partida amanhã? 
Voltar para casa hoje à tarde, depois de o deixar no comboio, ter montes de coisas para fazer e não me apetecer fazer absolutamente nada. Mesmo nada. Só esperar que a minha alma entre novamente no meu corpo.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Da felicidade


Um dois três... quem quer jogar comigo à macaca? Tardes quentes, escadas dos vizinhos marcadas a giz e eu por ali. Pé no ar, 1, 2, 3...
Tanto joga que mete o pé para dentro dizia meu pai. E eu feliz! Naquela rua sem saída que se fechava com a nossa casa. A porteira para o quintal, o passadiço viçoso cheio de florzinhas lilás e depois a amplitude de três arretos, o último dos quais era o reduto da minha mãe. Uma horta super organizada matematicamente estruturada rectângulo a rectângulo. Havia também a parte dos morangos que se espraiava todos os anos a conquistar terreno.
Meu pai nunca gostou da agricultura. Fazia e sabia fazer mas  não gostava. Tal como eu! O corpo doía pela noite dentro depois de dias cheios de actividade.
Eu também não gostava de porcos nem dos gritos deles pelas noites de Inverno quando morriam às mãos dos homens para encherem salgadeiras de carne que pouco a pouco ganhava a cor amarelada do tempo.
Naquela rua sem saída aprendi a ser feliz com pouco, contando comigo e com os meus sonhos. Cantava muito e ria muito porque os meus sonhos e  a minha imaginação me chegavam. Aos Domingos havia o ritual das regas. Manhã no quintal, à tarde regar as árvores. Algumas das quais arderam agora tirando sentido a tanto esforço, balde de água cheio, vezes sem conta, para despejar em cada uma delas. E eu pequena quase sem poder com ele. Regressava a  casa sozinha, como eu gostava, imaginando um mundo só meu onde era possível falar com a natureza.
As sestas de Verão na frescura dos quartos interiores e o silêncio. As saudades do pai. A alegria das suas chegadas! 
Os Natais com neve, que não permitia que se saísse de casa o que obrigava a conversas longas e a meiguices curtas e envergonhadas porque um beirão nunca se derrama em gestos de carinho só porque sim. 
Por aqueles lados, mostra-se o amor sendo para o outro. E basta ser para o outro. Basta pensar no outro e adivinhar o que o fará feliz. E fazê-lo. O amor para um beirão dá sempre muito trabalho porque nunca se resume a palavreado. É necessário trabalho, acção, dedicação!
A minha avó a viver connosco e que permitia que eu deitasse a cabeça cansada no colo dela, as duas sentadas ao lume, com as mãos enrugadas por cima da minha cabeça. Sempre conheci a minha avó de preto e com as mãos enrugadas. Mas como sabia bem tê-la ali para tudo! Chorava de medo de perdê-la.  Um dia, já eu adulta, cansou-se de viver e nunca mais saiu da cama. O que deixou em mim para sempre, além das saudades sem fim,  foi tanto e tão importante que seria impossível de escrever. Lembra-me o sorriso, o bom senso, a sabedoria e uma certa altivez que me dá graça. 
A minha mãe sempre a trabalhar! São poucas as recordações dela parada, descansada, repousada. Sempre em movimento, sempre empenhada em levar os filhos longe, sempre acreditando no trabalho como o melhor remédio para todos os males. Estava triste, trabalhava, estava stressada, trabalhava até que o corpo já não podia mais e o dia acabava.
A escola do outro lado da aldeia. Companheiras em salas grandes e frias que foram ficando pelo caminho e agora reencontro como avós felizes. Aquele espaço, disse sempre  minha mãe, era para aprender e assim foi. Sempre a primeira da classe porque tinha de ser. Não havia espaço para falhas. 
Nas férias regressava a casa o Sr. Hélio, nosso vizinho que passava o resto do tempo no sanatório da Guarda. Minha avó não nos deixava aproximar dele e ainda hoje vejo estendidos na corda da roupa os lenços de assoar vermelhos que ele usava. Estranhava a cor mas apenas isso. Nunca ninguém me explicou a razão porque não eram brancos como os de lá de casa.
Anos mais tarde partiram os nossos vizinhos do outro lado da rua para a América. Choraram todos muito e eu não percebi porquê. Nessa noite de partida eles já sabiam que nunca mais voltariam ali,  como aconteceu. 
Depois veio para uma das nossas casas a Sra Aida. Mulher boa, muito boa mesmo, que a primeira coisa que pediu foi para lhe cortarem a electricidade porque não tinha dinheiro para a pagar. Minha mãe não o fez e pagava-a ela. Eu escrevia-lhe as cartas para as filhas que viviam em Lisboa para onde tinham partido ainda crianças. Um dia, uma delas deu-me uma chávena com pires como recompensa pelas horas semanais em que retirava da caixa o caderno, escrevia o que ela ditava metendo no envelope com selo as poucas notícias da terra e da vida. 
Um dia, por tricas sem importância, a minha mãe esfriou a relação com ela. Tive imensa pena. Coisas de mulheres e de filhos. Cada uma pelos seus como deve ser. Depois, foi viver para o lar. Gostei sempre muito dela e tenho pena de não a ter visitado mais vezes e de não a ter acompanhado até ao fim. 
Aos 10 anos parti para Coimbra. De um dia para o outro passei de uma rua sem saída que a minha casa fechava, para grandes avenidas em construção, prédios muito altos, escola com turmas com meninas que nada me diziam porque a vida delas era tão diferente que não havia nada para pôr em comum. Pouco a pouco fui observando um novo modo de viver. O meu pai comprou um andar e deixámos de ter quintal durante a maior parte do ano. Contratámos um leiteiro e um padeiro como víamos os vizinhos fazer. Na mercearia perguntaram a minha mãe se queria um rol e ela ficou chocada e respondeu: eu pago sempre o que compro no momento! E pronto! 
A vida na aldeia começava com a chegada do Verão mas já nunca mais foi a mesma coisa. Só o trabalho continuava. Agora o meu coração começava a prender-se à cidade, aos amores de juventude, às saudades dos cafés, dos amigos, das quadras de ténis que entretanto comecei a frequentar. 
Já não pertencia verdadeiramente a lugar nenhum!
Como ainda hoje me sinto. Como me sentirei sempre. 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Não esquecer


Para não me aborrecer, zangar, irritar e por aí adiante!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Coisas que me vêm a cabeça


Quase a chegar aos sessenta, não me sinto velha! Tenho até imensa dificuldade em me imaginar idosa! Por dentro, na minha cabeça sou ainda tão mas tão jovem! Tanto sonho, tanta alegria escondida, tanta ilusão, tanta vontade de aprender, de partir para ver, de viver!
Sinto-me só mais madura quando aprecio a vida e as rotinas da geração dos meus filhos, tão diferentes da minha! Não com um sentido crítico mas até concluindo de que será uma geração que sabe aproveitar muito melhor a vida do que nós soubemos. Vivemos em demasia para o futuro, para nos instalarmos, seja lá isso o que for!
Nesses alturas de comparação, em que sinto já não poder voltar atrás, sinto-me a pertencer já a outro mundo e a outra realidade. É nesse ponto que a distância se alarga e percebo não poder pertencer a este núcleo que agora se forma. Estou fora!
De resto, embora adore ser avó e anseie ouvir uma vozinha a chamar-me assim, não me vejo como a minha avó Glória, vestido negro, avó dos pés à cabeça. Conseguirei, só por isso ser melhor avó que ela? Não sei! O futuro o dirá! Eu gostaria de deixar na minha neta tudo aquilo que a minha avó deixou em mim!
E embora não o sinta o que é certo é que os anos cá estão! E ainda bem!

Coisas que me lembram


A minha mãe nunca conseguia disfarçar o que sentia. Via-se na cara o que pensava de cada situação ou de cada acção vinda da nossa parte.
Esta postura dela sempre me irritou! Zanguei-me muitas vezes com ela com os seus "Ó filha que pena!" quando eu pensava exactamente o contrário. Chegava a gritar : que não, que não era nada como ela pensava ou dizia. Trabalhei muito para lhe mostrar que não tinha razão. 
E agora cá estou eu! Quase 60 anos, a lembrar-me de todos os episódios em que me zanguei e a concluir, querida mãe que tinhas sempre razão!! SEMPRE!