Hoje tive junta médica. Como cheguei cedo, fui tomar um chá a uma padaria portuguesa mesmo ao lado. De costas para mim, desenrolava-se um diálogo entre duas pessoas, relativamente jovens, tremendamente chocante. Dizia uma delas com toda a sua sabedoria que considerava que a Escola não deveria ser de frequência obrigatória!!!!! Para que servia? Se a criança queria ir iria, se não quisesse, não iria!!! O outro respondeu que concordava com a ideia e com o problema que era actualmente as crianças não gostarem de lá ir e terem de ir!! E para que servia?
Estava já a começar a ferver! Tantos anos para que a escola se tornasse obrigatória no papel mas, no meu tempo de escola primária, ainda não o era na prática. Nunca me esquecerei dos olhos mortos da Maria dos Anjos que, na segunda classe, a mãe veio buscar porque precisava dela para ajudar na lida da casa. Ela, obedientemente e lentamente, retirou os poucos materiais que tinha na carteira e saiu com a mãe, de olhos mortos e nunca mais apareceu. Ainda me lembro da revolta que senti pelo facto de a professora ( prima direita da minha avó) não a ter obrigado a ficar e a aprender. Cresceu sem saber ler nem escrever o que a tornou refém de um homem horrível que a tratou mal, não ligou nunca aos sinais inequívocos de doença que apresentava e a deixou morrer de cancro ainda muito nova.
Apeteceu virar-me para trás e perguntar se já tinham pensado onde colocar as tais crianças que não gostam de escola!! Em casa?
E quando não gostarem de um emprego, de um colega, de uma situação? Sair de mansinho e voltar para casa?
Estarrecida com estas mentalidades!