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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Desnorte educativo

 


Por estes dias e pelo segundo ano consecutivo,  faço parte da equipa de verificação dos livros escolares que estão a serem entregues. Para quem está menos familiarizado com o processo, no início do ano os livros são fornecidos gratuitamente aos alunos  com a recomendação de que não podem escrever neles, nem danificá-los e, no final do ano, são entregues para serem redistribuídos pelos alunos no ano seguinte.

Pensndo com alguma lógica, ninguém gosta de receber livros estragados, escritos, riscados, com desenhos, tudo e mais alguma coisa. Formam-se então equipas que têm como objectivo verificar o estado dos livros entregues. 

Normalmente são os pais que vêm entregar os livros e alguns trazem os filhos. 

Começando pelas boas notícias há uma minoria de pais excepcionais que trazem os livros encapadas e super limpos. 

Depois, há os outros:

Esta não é a letra do meu filho.

 Já estava assim quando lho entregaram.

Ela não vai apagar o que não fez. Aliás ainda dorme e já disse que não apagava.

Se dão os livros por que razão não pode fazer os exercícios nele?

Eu tenho de ir trabalhar não tenho o dia todo para estar a apagar livros.

É natural que os livros sofram desgaste, não?  (perante dois livros sem capa e com folhas rasgadas).

Alguma vez o meu filho escreveria num livro? Ele nunca pegou neles. Passou sem os abrir!!!

Numa outra mesa um grupo de alunos passou quase a manhã inteira a apagar livros. Quando verificados estava quase tudo na mesma.

Não se imagina o quanto eu me violento durante estas sessões para não abrir a boca e dizer umas coisas que penso  relativas à educação (ou não educação) que estes pais estão a transmitir aos filhos. Só me valeu o pensamento de que esta sessões serão as últimas da minha carreira e tenho de preservar o meu coração. Daria uma troca de palavras menos amigáveis e já perdi a vontade! 

Ainda não bateu no fundo!! Tudo isto me faz muita pena!


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Podcasts e pessoas interessantes

 


Quando se está quase preso em casa, aproveita-se o tempo, fazendo caminhadas pela casa, exercícios e, nos intervalos, ouvindo podcasts. Ontem estive uma hora a ouvir uma entrevista ao Ricardo Araújo Pereira (RAP). Confesso que gosto da personagem. Já disse aqui que gosto de homens inteligentes e ele é mesmo muito e com uma grande cultura. 

A páginas tantas, falando da avó, transmontana, emigrante no Brasil e regressada para Lisboa  e com quem passava as férias de Verão afirmou: a minha avó era um livro de auto-ajuda ao contrário!

Nestes tempos em que tanto se publicam livros de auto-ajuda, em que se tem medo do traumatismo nas crianças, da falta de auto-estima e de todas as sequelas que daí podem vir, o ser uma auto-ajuda ao contrário lembrou-me logo a minha mãe! Sempre que lhe contava alguma ideia minha a primeira reacção era: não, não. Não vais conseguir. Só com muito esforço e trabalho e mesmo assim...

Este discurso funcionava a 100% em mim. Ai não consigo? Então vais ver! E conseguia. Vá, quase sempre.

Tal como com a avó do RAP. 

Traumatizada? Nada!

Independente, apreço por alcançar metas, combativa, resiliente, tudo isto ficou da auto-ajuda ao contrário!

Obrigada, mãe!

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

A Casa ganha sempre à Escola

 


Ouvido hoje num podcast. Há anos que digo isto como professora e como mãe. Podemos ser muito bons profissionais, muito atentos, com muita vontade de mudar maneiras de pensar que pensamos não estarem certas no âmbito doa nossos padrões de vida e de sociedade mas esquecemos que o ninho criou os seus próprios padrões, as suas crenças, as suas balizas do bem e do mal e serão essas que acompanharão cada um de nós pela vida fora.

O saber científico é uma coisa, o saber emocional é outra completamente diferente. Tantas e tantas vezes eu ouvi: Ah, mas a minha mãe diz que não é assim! O meu pai não concorda nada com essa ideia!

 Não tenho a mínima dúvida que é essa opinião que ficará lá até ao fim!

Da minha experiência, vem a minha postura quanto à educação sexual nas escolas e à importância que, de repente, todos começaram a considerar que era grande. Nunca considerei! Dará um novo post!

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Conquistas boas

 


Tenho um aluno que apesar de ser dócil, até aqui, foi muito difícil ensinar-lhe algo. Desviava a conversa, fazia com que o tempo passasse e a Matemática a ver navios! Não ajudava o facto de serem dois tempos seguidos o que para uma cabeça de 10 anos e com alguma confusão não era favorável.

Hoje, chegou sorridente e com as páginas do livro abertas e sabia os exercícios que era para serem realizados. Trabalhámos durante 100 minutos, resolvemos todos os problemas e penso que  ficou a saber fazer. 

Saí feliz!

É necessário não perder a esperança! A Escola da esperança é o que nos salva.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Começar bem o dia

 


Estive desde as 8.30h com os alunos com PEA (perturbação do espectro de autismo) e fiquei maravilhada  com o trabalho que estes alunos realizam. Nem todos, mas quase todos. Um deles, tem especial talento para as artes e, naquelas duas horas, aprendi imenso com ele. De conversa fácil, muito amável e educado foi falando no seu stress e com o gere, na dificuldade que às vezes encontra no relacionamento com o irmão mais novo, nas desgraças que lhe vão acontecendo, mas sempre com bonomia, um sorriso nos lábios e um optimismo bom.

Fui eu que aprendi com ele e não o contrário. Quando me vim embora ficou triste. Vou voltar para  aprender, mais uma vez, que não temos de ser iguais e somos bonitos e bons nas nossas diferenças. Quer fazer uma vaso grande e bonito numa olaria. Vou ver se consigo encontrar uma e levá-lo.

sábado, 26 de outubro de 2024

Espírito crítico

 


Na educação, ter espírito crítico e ter bom senso salvam, muitas vezes, situações  menos claras.

A propósito das votações contra os telemóveis nas escolas o meu espírito crítico  diz o seguinte:

Muito bem para os intervalos, para que conversem, para que adicionem competências emocionais e sociais, para que troquem ideias e para que consigam ser adolescentes aprendentes e sociais. 

Muito bem ainda para quando utilizam os dispositivos para, sem o professor dar conta, estarem distraídos a ver a e enviar mensagens. Não imaginam o que eles conseguem digitar com o telemóvel no bolso!!!

Muito mal para as pretensões do ministério de educação de elevar a categoria digital ao nirvana. As escolas não têm recurso suficientes e os alunos trabalham com a internet da escola mas nos seus dispositivos em todos os documentos colocados no classroom, por exemplo. Não há nas escolas dispositivos para todos e apenas existem duas salas equipadas que têm de ser requisitadas. Em que ficamos?

Para mim, não faz diferença!! Sou doutro tempo!  Sei estar em aulas apenas com uma caneta, um quadro, um livro e o caderno diário. 

Duvido que para os docentes  que entram isso seja assim tão fácil!

Entendam-se! Ministério versus Parlamento!

Como afirma Michael Fullan no seu livro  "The new meaning of educacional change" - Suponha que nenhuma quantidade de conhecimento deixará totalmente clara qual ação deve ser tomada. As decisões de ação são uma combinação de conhecimento válido, considerações políticas, decisões no local e intuição. Um melhor conhecimento do processo de mudança melhorará a mistura de recursos dos quais extraímos, mas nunca representará e nunca deve representar a única base para a decisão.


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Realidades que batem

 


Hoje ofereci ajuda a uma colega que está na escola pela primeira vez. Tem 27 anos e é geóloga como eu. Tinha uma consulta online e estava preocupada com o modo como podia atender o telefonema da médica em aula. Combinámos que eu iria estar em aula e quando o telemóvel tocasse, ela saía da sala e eu continuava. Assim foi.

Já conhecia a turma, um tanto ruidosa  à qual tinha dado umas aulas de substituição. 

Fiquei agradavelmente surpreendida com o clima de aprendizagem que ali fui encontrar com conteúdos sobre minerais que normalmente são rejeitados pelos alunos. A linguagem entre professora e alunos fluía de forma fácil e parecia tudo em equilíbrio. Alunos bem dispostos, um clima de aprendizagem bom o que foi demonstrado na aplicação de conhecimentos que veio logo a seguir através do classroom. 

Bateu de repente a ideia trágica de que realmente todos eles, professora e alunos, pertenciam à mesma geração. Separam-nos uns meros 15 anos. De mim, há a diferença de 50 anos! Tem de fazer a diferença!

E esta ideia de equilíbrio geracional é importante para a aprendizagem. 

Fiquei contente pelos alunos.  Muito pensativa quando saí e enquanto  descia lentamente as escadas. O que ando eu aqui a fazer?  O que tenho eu ainda para transmitir a esta geração de netos? Como vejo eu o mundo e as coisas? Será a certa? Como  pensam estes alunos sorridentes o seu futuro? Como será concretizado?

Andei todo o dia a pensar nisto! No desfasamento geracional que tanta indisciplina acarreta. Não será tudo diferente quando, daqui a quatro ou cinco anos, mais de metade dos docentes formos embora e formos substituídos?

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Coisas que me irritam muito.

 


Quando alguém discute comigo assuntos que eu considero pouco apropriados e pouco interessantes e começam a menosprezar-me  como represália. 

O problema, ou não, é que eu sei muito bem quem sou! Conheço muito bem os meus interesses e tenho muito orgulho no meu percurso. Sei de onde vim e onde estou. Agradeço todos os dias aos meus pais a grande odisseia de nos terem educado de uma forma tão inteligente, tão arguta e tão eficaz. Podia não ter dado certo mas deu.  Não tenho problemas de auto estima, não me considero menos que ninguém! Considero que cada um de nós tem como grande objectivo conhecer-se muito bem e desenvolver todas as suas competências. Com a minha idade dedico-me aos meus interesses maiores e a estudos que a outros compreendo que não interessem. Não critico. Aceito.

Quando me começam a tentar diminuir, a mim e aos meus interesses e a tentar fazer de mim um ser sem interesses culturais, sem hobbies com interesse, sem conversas que revelem alguma cultura e conhecimento eu passo-me mesmo! 

Eu sei que não devia ligar mas há um botão cá dentro que explode. Sinceramente. Há algumas pessoas a necessitarem de espelhos!!

domingo, 7 de julho de 2024

Estratégias simples de concretizar

 


O ano passado, numa formação sobre inteligência emocional, foi dado a cada formando, logo no início, um pensamento motivador em forma de bilhetinho. 

Guardei o meu e outro que ficou por lá abandonado, pensando que seria um modo muito bonito de receber os alunos a cada novo Setembro. Chamar a nós pensamentos de positividade, de controle interior e de empoderamento. Não iniciar o ano por regras práticas. Essas virão depois. Iniciar com a ideia de que poderemos ser melhores a cada dia que passa  e que somos o que quisermos e não o que os outros querem. 

Mesmo que o efeito não seja a 100%, ficará sempre a semente. 

Outra ideia dessa formação que adorei. Foi-nos pedido que escrevêssemos uma carta com os pensamentos actuais e como nos sentíamos em relação a nós e à vida nesse momento. Colocámos a carta num envelope fechado com a nossa morada. Depois de 6 meses, recebi a carta que tinha escrito! Fiquei até emocionada! Nada do que eu tinha escrito, sentia no momento em que recebi a carta. Muitas coisas se tinham modificado e outras tinham deixado de ter importância e outras ainda estavam apenas na minha cabeça e nem eram reais. 

Estratégias engraçadas para, pela prática, levar os alunos a pensar por eles próprios, a tomarem as rédeas das suas vidas e das suas acções e a assumirem as suas culpas em tudo o que fazem menos bem. Paralelamente, ensinar-lhes a volatilidade de vida e o modo mais eficaz para nos adaptarmos a isso. 

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Falar sobre educação

 


Este ano, pela primeira vez, tive uma experiência diferente. Como não podia estar muito tempo em pé, um grupo de alunos   saía da sala de aula e vinha ter comigo à biblioteca escolar. Antes, articulava com a colega da disciplina de Matemática os conteúdos a trabalhar. 

Os alunos, cerca de 4 ou 5,  vinham motivados, traziam os materiais e normalmente sabiam muito bem o que vinham realizar. Tiravam as suas dúvidas com facilidade e não havia tempos mortos naqueles 50 minutos. 

Neste final de semana fizeram o balanço. Deixei-os falar. Curiosamente, só que por outras palavras, disseram o mesmo que eu: gostaram muito, tiravam as suas dúvidas com muito mais facilidade porque em espaço de aula receavam que o outros se rissem deles, notaram que não havendo barulho, aprendiam melhor e estavam mais concentrados, o facto de me terem sentada na mesma mesa fazia com que não pudessem estar distraídos e sem fazer nada, em cada aula aprendiam muito mais matéria o que se tornava uma mais valia porque, na aula seguinte e com a turma, além de poderem rever os exercícios ainda sentiam maior confiança  pelo facto de já dominarem os conteúdos. 

Esta seria a escola ideal. Grupos pequenos em que o professor, por estar tão próximo, fazia com que trabalhassem mais e melhor. É impossível de concretizar mas gostei imenso desta experiência. 

Pré requisitos importantes: um ambiente calmo, uma boa relação professor aluno e uma boa articulação com a docente da disciplina.


sábado, 15 de outubro de 2022

Do ser professor

 


Dizem que estamos velhos. Que há um grande fosso de gerações! 

Não concordo nada. Continuamos a aprender uns com os outros. Se sou chata? Sempre fui! Os meus alunos sabem que não há telemóveis nem mochilas em cima das mesas, que os materiais são apenas os da disciplina, que fala um de cada vez, que entram ordenadamente na sala, que detesto más respostas e os pais são sempre avisados do sucedido e que sou exigente com as aprendizagens e com o modo como realizam as tarefas.  As horas em que estamos juntos são de aprendizagem.

Com eles aprendo a irreverência da adolescência, o riso fácil, o encantar-me com as suas descobertas, as capacidades digitais, o espírito de grupo, já tão desgastado na minha idade. 

Em que os ajudo? A projectar  todos os seus futuros, a mostrar-lhes caminhos que ainda não tinham sido pensados, a dizer-lhes que são capazes, a demonstrar-lhes que pelo trabalho chegamos sempre lá, a relativizar os seus falhanços e a abrir atalhos em insucessos que ainda sangram. 

O que fica para sempre? As frases de incentivo, os bons dias "como está a melhor professora do mundo?", os encontros e os "dê-me um abraço", os olhares que sorriem, os homens feitos que recordam frases que eu disse há 30 anos para me incentivar, agora que sou aluna deles de ténis! Tanta coisa que fica! Tanta conversa, tanto ensinamento, tanta recordação!

Fica um pouco de mim em cada um deles e muito deles em mim!

Grandes alunos que eu tive nestes anos todos! Grandes homens e mulheres que são. 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Dimensão humana da mudança


 




Reflexões sobre o digital na Educação



“Querer é poder”!

Esta afirmação serve para todas as situações da vida profissional e pessoal.

No entanto, há imensos entraves e dúvidas no que toca às mudanças relativas à utilização do digital em sala de aula.  Uns de origem emocional outros de origem técnica e outros ainda por falta de conhecimentos e de formação.

Somos de uma geração não digital, uma geração da palavra, do discurso, da aprendizagem passiva. Fomos fazendo a nossa aprendizagem ao longo de muitos anos mas sentindo que, mesmo com tanta ferramenta à disposição, o modo como tínhamos aprendido com os nossos velhos e bons professores ainda fazia sentido.

Em todos os percalços, em todas as falhas do sistema, em todas as falhas de internet, nós sentimos que estamos certos, que as nossas histórias e os nossos métodos seguríssimos nunca falharão!

Há então um dia em que ensaiamos aulas digitais, porque sabemos, porque experimentámos antes, porque estamos confiantes de que vai dar certo. E dá! E vemos alunos super entusiasmados, fazendo pesquisas, andando sozinhos, quando antes precisavam tanto de ajuda, trabalhando em grupo, tirando dúvidas uns aos outros e saímos daqueles espaços com a certeza que é o caminho certo.

Falta depois o tempo colaborativo. Tempo para pôr em comum. Tempo para construção, para reflexão, para aquisição de novas competências digitais.  Tudo parece uma roleta e os dias rolam entre tarefas classificatórias, semestres e avaliações, indisciplina que urge colmatar, problemas dos alunos que muitas das vezes são maiores que eles.  É o tempo deles mas é um tempo difícil onde não há espaço para nada. Interrogo-me muitas vezes que adultos sairão deste tumulto, destes dias cheios, destas famílias que procuram encontrar-se ,conhecer-se e olhar em frente mas ainda não conseguiram.

A mudança está dentro de nós, professores, alunos e pais. 

Vive em nós mas necessita de andar a par com um grau de exigência suficiente para não comprometer a aprendizagem.

Entre tanta ferramenta à nossa disposição é necessário tempo para conhecer e selecionar de acordo com os nossos objetivos. Trabalhar muito bem com os meios que escolhemos de modo a torná-los uma extensão de nós. 

Para tal, é necessário colaboração entre todos. Falta tempo  para tal. 

Mudança sim.  Criação de condições para tal, necessita-se. 



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Temas essenciais


 É pena não haver em edições portuguesas  obras científicas sobre aprendizagens eficazes e como  levar os alunos a investir nelas. Livros práticos com exemplos, esquemas, modelos, tabelas que permitam aos docentes diversas abordagens alavancadas em dados científicos.

Resta comprar online e fazer destas obras a nossa leitura de cabeceira.

Este, estou a rever e a sistematizar conhecimentos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Outros tempos



Minha mãe era uma excelente cozinheira que tratava por tu toda a boa cozinha da Beira Alta.  

No Verão tínhamos sempre familiares a passar férias ou só de visita. Nessas alturas, saíam do armário os pratos com flores verdes com o seu cheiro característico, os guardanapos de pano enfiados em bolsinhas bordadas, as jarras de vidro e a toalha imaculada. Havia sobremesa e café acompanhado por uns esquecidos divinais. Desfilavam pela mesa empadões de frango, coelho frito, cabrito no forno, pasteis de masa tenra, bolos de bacalhau,  peixinhos da horta, ervilhas com presunto e ovos escalfados,   travessas enormes de arroz doce, leite creme queimado, enfim um prazer supremo para os olhos e para o paladar.

Sentar-se àquela mesa exigia que se soubesse comer de faca e garfo, se tivesse maneiras, se soubesse ouvir as conversas dos adultos e só se levantasse quando o mais velho à mesa o  autorizasse. Minha irmã, desde muito nova, se sentou com os adultos. Gabavam-lhe as maneiras e a compostura que trouxe até à actualidade. Eu e meu irmão ficávamos na cozinha, um de cada lado da mesa à espera que os adultos se servissem. Só então, quando as travessas regressavam à cozinha, nós nos servíamos entre gargalhadas e maus comportamentos. Estes almoços eram também momentos de grande liberdade porque ninguém nos vigiava. Uma vez ou outra uma tia já idosa fazia-nos companhia. Não me lembro por que razão não ia para a mesa! Atrapalhação com os talheres? Talvez!

Num desses almoços meu irmão veio com a teoria que a comida depois de ser lambida por um gato sabia melhor!? Colocámos os pratos no chão e fomos buscar um gato que adorou a experiência. Depois acabámos de comer!

Até me arrepia pensar nisto agora mas aconteceu! 

sábado, 5 de setembro de 2020

No início deste novo ano

Uma das professoras
Os dormitórios dos alunos
O cozinheiro da cantina escolar
Os serviços administrativos da escola

As viagens são sempre um óptimo modo de ver novas coisas e aprender novas realidades. Em 2012 tive a oportunidade de participar num projecto escolar que me levou a uma pequena cidade na Roménia  e a uma escola que ainda hoje me lembra. A cidade (Targu Jiu) fica a sul da floresta da Transilvânia e a escola era constituída por um prédio onde decorriam as aulas e outro destinado a  dormitório dos alunos que pertenciam à montanha e  que ali viviam só visitando a família aos fins de semana. 

Recordo, com alguma tristeza, os olhos sem brilho destes alunos em plena adolescência vivendo em instalações sem conforto que seriam extremamente frias no Inverno rigoroso. Tudo para que pudessem tirar um curso que lhes permitisse melhorar a vida.

As aulas decorriam de forma ordenada mas  imperava uma certa tristeza que começava pelo semblante dos professores. Ali, até o livro de ponto, com dimensões fora do comum, era preto!!

Os serviços administrativos resumiam-se a duas senhoras sentadas num exíguo espaço que resolveriam todos os problemas que iam aparecendo. 

Lembro-me muitas vezes destes alunos, desta escola, destes colegas lá de longe, tão mal pagos e tão explorados. O mal dos outros não é conforto mas ajuda na minha motivação perante todas as condições que temos nas escolas hoje em dia. 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Sobre o medo da vida


Os meus pais souberam educar-nos muito bem! Deram-nos ferramentas preciosas para lidar com a vida e com os percalços. Ensinaram-nos pelo exemplo, lutando sempre com um sorriso nos lábios! Se houve momentos duros? Então não houve! Mas até esses, tempos mais tarde, foram recordados a sorrir! 
A importância do trabalho e da dedicação como um modo de chegar mais longe e, ao mesmo tempo, centrar o nosso dia a dia para que não esmorecêssemos. 
Por vezes penso que levei este ambiente longe demais mas estou a aprender a relaxar um pouco que sinto ser necessário neste momento da minha vida.
Não sinto medo da vida! Não temo o que há-de vir! Logo se verá e resolveremos tudo o que for aparecendo. Muitas das vezes a realidade é bem mais fácil que a imaginação. 
Estas ferramentas mentais interiorizadas ao longo da minha vida com eles, permitem-me ir com confiança porque sei que, mesmo que tudo dê para o torto, posso sempre contar comigo e com as minhas capacidades para endireitar as calçadas que trilho.
Parece simples mas não o é! Parece que toda a gente é assim, mas não é! 
Obrigada pais por todo o exemplo e por todas as gargalhadas que soltámos nas piores alturas e depois delas. 
Criaram guerreiros!

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Sexta feira é um dia tramado


De trabalho com tanto pormenor e com tanta minúcia que a concentração, lá pela hora do almoço, começa a ficar baça e lenta.
Não me posso enganar em pastas, em planificações, em horários, em números de lições. Na segunda feira, quando os alunos iniciarem a semana, não pode haver dúvidas nem enganos da minha parte. Este trabalho à distância não pode perder qualidade para que as aprendizagens se realizem da melhor forma possível. 
Ontem foi o dia de escolher os materiais mais apropriados. Hoje é o dia de os distribuir pelas aulas de cada uma das turmas. Verificar os trabalhos que ainda faltam, avisar os alunos e enviar as correções. 
Vamos lá então continuar! Avizinha-se uma longa tarde.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Há muitos anos atrás...


Fui directora de turma de um grupo de alunos com o qual  aprendi mais do que lhe ensinei! Cada um deles, já a entrar na década dos trinta, me lembra muito ainda hoje.
A turma não era constituída por alunos com muito boas notas mas tinham valores, sentido de responsabilidade e de liderança, vontade de aprender coisas novas, motivação e capacidades de trabalho. Estava na turma uma aluna com necessidades específicas que naquele grupo de alunos e de professores  desenvolveu muito bem as suas capacidades.
Era o tempo da área-escola. Uma área transversal que pretendia englobar saberes de várias disciplinas num trabalho que envolvesse as potencialidades locais e levasse os alunos a conhecerem melhor o meio onde viviam. Soa familiar? Foi há muito tempo!
O tema escolhido foi a indústria local! Os alunos pesquisaram, contactaram as fábricas, marcaram visitas, elaboraram os guiões para a visita, tudo isto quase sem a minha intervenção. Fizémos visitas de estudo que correram muito bem porque eram eles que queriam saber, investigar e recolher material para a exposição que queriam montar para mostrar à escola o seu trabalho. Um must. Eu estava cada vez mais encantada e feliz.
A exposição foi montada no final do ano no dia marcado para que todas as turmas mostrassem o que tinham feito. Não foi necessária a minha ajuda. Lá estavam todos, com tarefas distribuídas, materiais prontos, e os guias das visitas definidos e com a matéria bem estudada. Um deles filmou o evento e outros fotografaram para memória futura. Algumas das fábricas visitadas já não existem. É o caso da fábrica do algodão que visitámos entre nuvens de algodão que quase nos tapavam o olhar. Uma risota. Impensável nos dias de hoje.
Ao longo do ano  dinamizaram vários eventos sempre da sua autoria, sem ser necessário motivá-los,  como  a comemoração do dia de S. Martinho no polivalente da escola que até fardos de palha teve como decoração não faltando o chouriço assado e as castanhas.
Aprendi com eles que era possível desenvolver trabalho e aquisição de conhecimentos  de uma forma alegre e motivadora sem grande stress por parte dos professores. Aprendi que era possível trabalhar fora da sala de aula sabendo que aquelas aprendizagens e competências eram essenciais para o seu percurso educativo. Aprendi que é fundamental  que os alunos tomem consciência da importância destes projectos para o seu sucesso educativo e que essa tomada de consciência é o ponto fulcral para um bom comportamento e para a realização de um muito bom trabalho. Aprendi que um bom ambiente de trabalho, dentro ou fora da sala de aula, é extremamente motivador para os professores e para os alunos. Aprendi que os alunos têm muito mais capacidades de trabalho e de liderança do que as que evidenciam. Aprendi que se incutirmos nos alunos uma grande dose de autonomia eles são capazes de nos surpreender. Aprendi  que é possível ter num grupo de alunos um grupo de amigos para   a   vida e que essa amizade se forja em momentos de aprendizagens significativas aliados ao prazer de aprender.
Lembro-me muito deles quando tento motivar os meus actuais alunos para visitas de estudo aliciantes, para conhecimentos sobre o meio, para a ligação entre o currículo formal e o informal e sinto uma resistência muito grande e uma apatia enorme.
O que mudou?

O rei vai nu


Só me ocorre esta história quando penso no que se passa nas escolas actualmente.
Apetece-me falar no importantíssimo "Plano de turma"!
Se eu perguntar a todo o meu conselho de turma o que lá está estampado, a maioria não sabe e não os culpo. Prefiro mil vezes que ocupem o seu tempo a preparar aulas que façam a diferença nas aprendizagens dos meus alunos. O trabalho todo recai sobre o director de turma (eu) com a consciência plena que está a redigir um documento que nunca ninguém vai ler e analisar. 
Parece-me que ainda não se percebeu que o que faz realmente a diferença é a sala de aula e tudo o que podemos transmitir aos nossos alunos de modo a que evoluam nos seus conhecimentos. Ter tempo para esta preparação, envolvendo pesquisas e aquisição de competências por parte de todos os docentes, quer individualmente, quer em grupo, parece-me ser fulcral. A flexibilização curricular é mais um chavão  vazio de conteúdo. Era possível flexibilizar 25% do currículo. Actualmente passou a 35%! Agora a sério: alguém sabe em cada turma, qual é a percentagem do currículo flexibilizado??? Como se calcula esta percentagem? E o que é que isto quer dizer na prática? 
Os alunos têm consciência da importância deste documento nas suas vidas escolares? Os pais sabem que o currículo está a ser flexibilizado e o que isso quer dizer? Os professores acreditam neste Plano como potenciador das aprendizagens dos seus alunos? Este Plano é algo novo, como a descoberta da pólvora, na vida das escolas? Começou-se agora, porque existe o Plano, a desenvolver actividades que envolvam os alunos e lhes permita descobrir o mundo para além da escola?
Tenho imensa dificuldade em perder tempo precioso na elaboração e melhoramento deste documento. Tenho o sábado para realizar imensas tarefas de correção de trabalhos dos alunos, de preparação de aulas inovadoras, de pesquisa sobre recursos educativos. O que é que vai acontecer? Vou trabalhar o plano de turma e preparar uma reunião onde vou falar do plano de turma!
Estou a começar a ficar farta!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Together we grow

A teaching team is only as good as the sum of its parts. Stressed and burned-out teachers don't benefit anyone. Effective teams understand the need for personal rejuvenation. They look after one another. (...)
Teaching is always on our minds, but sometimes we come up with our best ideas when we leave the job behind. We might go to the movies and find a surprising connection to an upcoming unit or read the newspaper on a Saturday morning and catched a related article. We never totally turn off our teacher brains, but we've learned how to shift into lower gears. (...)
Work smarter not harder.

in "Teamwork: Setting the Standard for Colaborative Teaching, Grades 5-9" by Monique Wild, Amanda Mayeaux and Kathryn Edmonds.