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sábado, 28 de junho de 2025

Continuação

 


Um pai super zangado: Faz algum sentido emprestar os livros aos alunos e eles não poderem escrever neles?

Podem escrever no caderno diário ou usar post-its transparentes.

Não faz sentido. Eles escrevem nos livros e o estado compra outros para o ano seguinte!

Pois está claro! Pagamos todos, meu senhor, pagamos todos! 

Um livro que tinha o friso cronológico todo rasgado e que não se podia ler.

Só por isso vou ter de pagar o livro? 

Como está a ver o aluno que ficasse com este livro  não podia estudar o friso.

Acha que alguém vai estudar isso?

Chegam depois os pais e mães que mandaram os filhos e filhas apagar os livros e vem tudo escrito.

Eu mandei limpar. 

E não verificou?

Não. Não é meu costume! 

Nem livros, nem estudo, nem cadernos  nem actividades, nada desta vida. (digo eu)

Outro pai chega com os livros todos escritos..

Eu, apagar livros? Mas não estão aqui para isso? (Como disse?)

Não meu senhor. Eu sou professora. O meu trabalho é verificar. O seu trabalho é manter os livros que foram emprestados ao seu filho em boas condições!

...

segunda-feira, 28 de abril de 2025

O sol continua a brilhar

 


Muitas coisas para fazer e para resolver. Assuntos que me tiram da zona de conforto mas só assim poderão ser resolvidos.  Muitas questões em mente arrastando-se nos dias e estragando as noites.

Ontem, foi dia de colocar a casa em ordem. Soube bem. A mudança traz sempre alguma paz. Sou entusiasta da mudança,  da melhoria e do bem fazer. 

Voltar aos meus alunos. Aos seus problemas e impedimentos que não os deixam progredir. Desfazer nós mentais  que se avolumam quando estão por casa. Gosto mesmo de ensinar! Penso até que é uma forma de não envelhecer tão depressa. 

Boa segunda-feira. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Gosto mesmo muito de alunos


 Se há algo que posso dizer com toda a certeza é mesmo isto: adoro estar com alunos. 

Este ano, tenho os alunos que têm algumas ou muitas dificuldades. Vão em pequeno grupo ter aulas comigo. Adoro entrar-lhes na alma, com muito cuidado para não os ferir, e perceber o porquê de certos comportamentos e atitudes face ao mundo, à aprendizagem e à escola. 

Hoje tive o J.  sozinho porque os colegas faltaram. Falámos na apresentação oral de Inglês e dos temas que tem à disposição. Disse que ia escolher o tema "quem sou eu" e deixava o tema " a minha família" porque no ano anterior tinha sido muito complicado. O J. têm um sorriso lindo e um problema de dicção que o torna único. Perguntei porquê e  respondeu com um sorriso: não tenho fotos do meu pai, então procurei uma foto de um homem qualquer e coloquei no  slide. 

Pelo meio, contou que se levanta todos os dias às 6 da manhã para acordar o primo que vive com eles e vai para uma escola especial. Como o primo nunca quer acordar, demora sempre imenso tempo. Apanha o autocarro às 7.30h e chega à escola às 8h. Vive também com o avô e avó.

Que motivação se espera deste miúdo? Que  é que se pode pedir mais? 

Se pensarmos mais nas almas e nos problemas que cada um carrega, talvez sejamos mais benevolentes quando falamos deles. 

Não são todos iguais é claro. Há alguns super mimados e parvos que tudo têm e ainda pedem mais. 

Mas estes alunos com estas vidas tramadas, dá vontade de os pegar ao colo e os transportar para uma vida melhor, um canto onde possam estudar bem todos os pontos das disciplinas, sem o primo que não quer acordar dentro das suas limitações e sem a noite da madrugada a dificultar todos os pensamentos e a vinda para a escola. Estou contigo J.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Em Março comecei a trabalhar novamente

 


Foi bom ter rotinas apesar de chegar a casa cansada e com o pé a doer. Rever amigos e colegas deu-me um novo fôlego que a casa não traz. Recordo-me da minha turma preferida de antigamente ter saído de uma sala aos berros de alegria para me vir receber. Penso que não era necessário mais nada para me sentir feliz. São estes momentos que também  dão sentido à minha vida. Gostava imenso destes alunos! Tanto!

Sentir que o pior já tinha passado e conseguiria voltar ao antigamente.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Coisas engraçadas

 


Saída da escola. Uma mãe esperava os filhos ao portão.

- A professora ainda por cá anda? Há tanto tempo que foi minha professora! Veja lá que já tenho 45 anos! 

A professora está óptima nem parece nada  que anda cá há tantos anos!

Pois é! A procissão vai por dentro.

De repente vi-a! Sentadinha, menininha,  bem comportada e o mesmo sorriso. Depois lembrei-me do nome - Vanda.

Coisas engraçadas da memória. E sim, já foi há muito tempo!


terça-feira, 3 de setembro de 2024

Mudanças nem sempre boas

 


Ontem fui apresentar-me à Escola. Imensas caras novas, e algumas mesmo novas de idade que penso que já foram meus alunos! A nova geração a chegar. O barulho, típico destes dias, estava menor. 

Senti-me, lentamente, surdamente, a desligar-me emocionalmente do momento! A sério, só pensei nisso mais tarde mas este tempo fora da Escola fez muitos estragos. Foi como se saísse de uma  carruagem para, penso eu, nunca mais  entrar!! Pela primeira vez, não me apetecem convívios nem acções de formação.

Antes, estava presente em tudo. Eu sei que algumas vezes porque pensava que tinha de ser! Agora só já me inscrevo no que realmente me interessa. 

Concentro-me em estudar os novos materiais pedagógicos que já tenho junto a mim. Preparar actividades engraçadas e cientificamente interessantes para os meus alunos. 

Dei por mim a pensar que já tenho 41 anos de trabalho, de alunos, de vidas que passaram por mim! Penso que estou a ficar cansada! Sem paciência para assuntos menos interessantes e para tricas e dicas que não levam a lado nenhum. Tendo a colocar-me ao lado e talvez esse seja o motivo para ter vindo para casa mais cedo, pensar na vida e nos acontecimentos. 

Pelo meio, "...então o Eugénio lá se foi! Estava mal, muito mal". Ele foi e nos iremos e é necessário pensar muito bem o que fazer. O ano começa, ele nunca mais estará e a vida continua! É a vida, dirão alguns,  mas custa muito pensar que 41 anos ou ainda mais se resumirão a uma frase de compaixão num início de ano qualquer!



quinta-feira, 20 de junho de 2024

Continuando...

 


Os alunos sabem muito bem quem se importa com eles e quem os respeita. Não é necessário dizer nada. 

Não é necessário deixar de ser a autoridade  dentro da sala de aula. Há que haver um líder e tem de ser o professor. A liderança tem de ser segura e aumentar a confiança dos alunos. Nunca pedir nada que não se pratique. Foi uma dos elogios que uma mãe me fez num final de ano e de que nunca me esqueci: a professora nunca pediu nada a nenhum aluno que não fizesse primeiro. Se se pede a um aluno para ser pontual, o professor tem de ser pontual. Se se pede para entregar os trabalhos dentro do prazo estabelecido, também o professor o tem de fazer e por aí adiante. Nada de complexos de superioridade que não sejam assentes em sabedoria ou em saber estar e fazer. 

Ter tempo para os alunos. Conversar com eles quando ficam para trás nos intervalos.  Há sempre algo importante que querem transmitir. 

Ensinar pormenores mesmo que não estejam nas planificações. Muitas vezes é isto que fica. Tantas e tantas vezes que encontro alunos adultos que me contam histórias que lhes contei e de que já não me lembro! Ficou! Fez diferença. Isso é importante. 

Ensiná-los a falar em público. Dar-lhes regras práticas para um discurso oral sem falhas e que prenda a atenção dos ouvintes. Eles gostam tanto de experimentar e aprender e e verificar que dá certo. No futuro, esta competência ser-lhes-á tão útil!

Ensinar-lhes regras de organização escolar.  Como manter tudo sob controle nas diferentes disciplinas.  O uso do caderno de notas, calendário do telemóvel ou apenas o bloco de notas digital com lembretes. 

Ver em cada um um o potencial que eles não veem e partir sempre de cima. Pouco a pouco, eles percebem que são capazes.  Mesmo que não em todas as áreas do saber, em algumas delas. 

Adoro alunos. Do mais inteligente, super apoiado pela família, até àquele que chega a casa ao final do dia  e não tem ajuda de ninguém. O patamar não é igual. Cabe à Escola diminuir a diferença.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Sobre as medidas educativas

 


O outro dia, ao ouvir falar o ministro da educação, estava a pensar que todos eles deveriam passar um ano, pelo menos, na escola pública para saberem como funciona e, só depois, poderiam decretar medidas educativas para salvação do sistema. 

Tive a sorte de ter feito estágio integrado na Universidade de Coimbra com dois orientadores fora de série. Já com alguma idade, bons profissionais, todas as 4ª feiras nos reuníamos para falar e modificar tudo o que tinha corrido menos bem na semana anterior. Sem juízos de valor ou críticas íamos aprendendo que algumas das estratégias não funcionavam e outras, muito mais simples, funcionavam muito melhor. 

Não esquecer que lidar com crianças ou adolescentes não é o mesmo que lidar com papéis ou estar a resolver assuntos a uma secretária. Os alunos são pessoas em formação e temos de ter isso sempre em linha de conta. 

Depois deste ano não me considerei lançada "às feras"! Tinha ferramentas poderosas que com mais aprendizagem com os colegas mais velhos fui aprimorando e descobrindo. 

Enquanto Coordenadora de Departamento Curricular fiz sempre um pouco este papel com as colegas que chegavam sem nunca terem dado aulas. 

Se eu fosse o ministro o que diria neste momento da situação do ensino público?

1 - Os professores com mais tempo de serviço e mais perto da reforma poderiam ter a hipótese de ficarem a ajudar um grupo de colegas que estivessem pela primeira vez no ensino. Tanto para aprender! 

Não se grita quando há barulho na sala. Fala-se cada vez mais baixo e o ruído reduz.

 Quando há um aluno  mal comportado, chegamos perto dele. Se for necessário, permanecemos por um bocado continuando a aula junto dele.

 Os alunos não devem estar muito tempo a ouvir. Entremear uma explicação curta com tarefas exequíveis relativas ao que foi explicado. As tarefas podem não ser digitais. Os alunos gostam de escrever, de ler, de resolver.

 Em turmas com alunos com muitas dificuldades colocar tarefas escritas,  com um exemplo resolvido e a seguir tarefas repetitivas e com baixo grau de dificuldade de modo a fazê-los sentir que são capazes de a resolver. Nenhum aluno se motiva se a tarefa tiver um grau de dificuldade muito superior ao conhecimento adquirido. Pouco a pouco, ir aumentando a dificuldade mas mantendo o esquema. Seguir o método Kumon dá sempre bons resultados.

 Tratar os alunos sempre com respeito. São pessoas. Por serem mais novos, nada permite que não seja assim. Tentar perceber o porquê de certos comportamentos.  Por vezes, percebe-se que face à vida de cada um, até é muito bom naquilo que   faz e realiza um esforço titânico para estar ali e chegar onde chega. Cada aluno é um caso.

 Saber explorar o erro numa aula é uma ferramenta importantíssima que, muitas vezes, faz a diferença nas aprendizagens. Entrarem em silêncio nas aulas e saírem por filas para evitar aglomerados também transmite ordem e disciplina.

Ouvir o que têm a dizer os alunos. Aproveitar, sempre que possível, as suas contribuições e dar-lhes visibilidade. Aumenta a auto estima de cada um deles. 

Ensiná-los como se estuda a disciplina. Perceber quais os métodos de estudo que utilizam e como podem melhorá-lo.

Tudo isto podia ser ensinado por docentes com tarimba que passassem o seu testemunho às gerações que se quer que entrem mas não se lhes dá condições para  o fazerem com qualidade. 

2 - Aumentava significativamente o ordenado dos professores no primeiro escalão de modo a que  os jovens se tentassem, mais que não fosse,  pelo ordenado. Com um pagamento tão baixo, a escola pública não consegue atrair docentes de qualidade. 

3 - Um técnico superior por agrupamento para diminuir a burocracia? Coitado do técnico!!! Há que diminuir sim, mas doutro modo. As reuniões têm de ser diferentes, as atas de 18 páginas repetindo sempre a mesma coisa têm de ser reduzidas. Coloca-se na primeira acta a informação importante relativa a cada aluno e, só se mudar alguma coisa, se refere posteriormente. Contactos com os encarregados de educação? Se fica registado noutro suporte, para quê em acta? Projecto de Educação Sexual com número de aulas indicado em legislação? Então por que razão também não existe um de educação ambiental, outro de educação cívica, outro de educação emocional e por aí adiante? Não será que o perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (PASEO) terá já isto tudo contemplado?

4 -Tarefas classificatórias com respectivas rúbricas de avaliação para cada uma. Não seria muito mais simples, no início de cada ano, o aluno  ter em seu poder estes documentos e a partir daí, como avaliação contínua que é, poder ser avaliado sem mais documentos estafantes?

5 -Planificações- Diminuir a complexidade com a ajuda do que já existe no mundo digital. Se se adopta um livro, a planificação que vem com ele tem, com toda a certeza, muito a ver com o modo como decorre o ano e o trabalho que se desenvolverá. O trabalho prévio esteve na adopção do livro.

Muito mais há a dizer. Isto é só um começo.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Educar não é isto

 


Fui tomar  café e encontrei uma aluna, tímida, com um sorriso lindo e com vontade de aprender. Sorri para ela que estava meio escondida atrás da mãe uma senhora muito nova e decidida. 

Dei por mim a elogiar o comportamento e a motivação da filha  e ela a queixar-se que a filha não percebia nada de Matemática e ela também não conseguia ajudar porque não percebia nada daquilo!!!

Continuei motivando, indicando novos caminhos que actualmente existem e que, se ela quisesse, sempre é tempo de recuperar mesmo quando se sentem dificuldades porque era motivada e resiliente.

A mãe, do alto da sua sabedoria, respondeu: eu acabei o 12º ano na escola profissional e a muito custo. Detestava a escola e foi um grande alívio quando me vi livre dela!!

A aluna, atrás da mãe, olhou para mim, sorriu e pediu um gelado!

Assim se motivam os filhos para a aprendizagem! Talvez pela negativa! Quem sabe?

Falar sobre educação

 


Este ano, pela primeira vez, tive uma experiência diferente. Como não podia estar muito tempo em pé, um grupo de alunos   saía da sala de aula e vinha ter comigo à biblioteca escolar. Antes, articulava com a colega da disciplina de Matemática os conteúdos a trabalhar. 

Os alunos, cerca de 4 ou 5,  vinham motivados, traziam os materiais e normalmente sabiam muito bem o que vinham realizar. Tiravam as suas dúvidas com facilidade e não havia tempos mortos naqueles 50 minutos. 

Neste final de semana fizeram o balanço. Deixei-os falar. Curiosamente, só que por outras palavras, disseram o mesmo que eu: gostaram muito, tiravam as suas dúvidas com muito mais facilidade porque em espaço de aula receavam que o outros se rissem deles, notaram que não havendo barulho, aprendiam melhor e estavam mais concentrados, o facto de me terem sentada na mesma mesa fazia com que não pudessem estar distraídos e sem fazer nada, em cada aula aprendiam muito mais matéria o que se tornava uma mais valia porque, na aula seguinte e com a turma, além de poderem rever os exercícios ainda sentiam maior confiança  pelo facto de já dominarem os conteúdos. 

Esta seria a escola ideal. Grupos pequenos em que o professor, por estar tão próximo, fazia com que trabalhassem mais e melhor. É impossível de concretizar mas gostei imenso desta experiência. 

Pré requisitos importantes: um ambiente calmo, uma boa relação professor aluno e uma boa articulação com a docente da disciplina.


segunda-feira, 18 de março de 2024

Nova etapa

 


Hoje começo novamente a ir à Escola! Depois de algum tempo com dores, penso já poder voltar a estar com alunos o que me enche de alegria e de algum nervosismo. 

Afinal foram 40 anos a ensinar, a tentar mudar vidas e a ajudar a ver a luz no fundo do túnel. São outros tempos e novas mentalidades. A parentalidade, de um modo geral,  está diferente, exigente, individualista, não sabe esperar e amparar. 

É necessário tempo! Muito tempo! Deixar amadurecer o que ainda é embrião mas ensinando, dando o exemplo e acreditando que tudo é possível. 

O tempo não está fácil. A volatilidade do mundo não ajuda mas continuo a acreditar numa série de princípios que continuam a estar actuais. É nesses que todos temos de nos focar.

Ao trabalho!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Encontros bons

 


Ao sair da frutaria, encontrei uma antiga colega e amiga há muito na reforma. Costumamos ficar a conversar e hoje não foi excepção. Recorda-me outros tempos da escola pública onde a aprendizagem efectiva era muito importante e a disciplina também. As conversas da sala de professores eram produtivas, havia um verdadeiro espírito de entreajuda e, normalmente, versavam temas pedagógicos e didácticos de grande importância. O que eu, professora com vinte e muitos anos aprendi com estas queridas colegas! Eram exigentes, não se importavam de dizer que estava mal, mas davam dicas para que ficasse melhor. Tinham sempre um sorriso nos lábios e já assumiam, muitas das vezes, o papel da família que a crise não é tão recente como parece. 

Continua com a mesma doçura, o mesmo sorriso, o mesmo saber ser e estar de antigamente.

Acabei a conversa com um " fazes muita falta aos meus dias"! É tão verdade!

Agora ninguém conversa, presos aos computadores, às tarefas burocráticas que, a maioria das vezes, não acrescentam nada. Não há transmissão de experiências, não há piadas, não há histórias boas de sucesso para partilhar. Quando há espaço, aparece unicamente o lamento.

Tenho saudades da outra Escola! Daquela que os meus antigos alunos, agora pais dos meus actuais alunos pensam que ainda existe quando, na recepção do início do ano, me entregam os seus filhos! Eu tento dizer que sim mas não acredito.

sábado, 29 de agosto de 2020

Renascer em Setembro

 


Depois de tanto tempo confinada, vai saber bem voltar. Apesar do medo e da incerteza em relação ao que aí vem, uma certa alegria cola-se à entrada deste mês novinho em folha. Há algumas dúvidas mas, com o tempo, tudo se resolverá.

Poderão os meus alunos perceber bem o que eu digo  por trás de uma máscara? O ambiente de sala de aula será o mesmo com as máscaras? Conseguirei cuidar das suas participações e intervenções da mesma forma?  O que faço à distância imposta quando quero tirar dúvidas, olhos nos olhos? Para onde vai a cumplicidade de um sorriso na altura certa? Terei tempo de ver tudo respondido. Por agora fica a incerteza.

Bom início de ano lectivo!



terça-feira, 30 de junho de 2020

A última história ao contrário


Quando era Coordenadora da Biblioteca Escolar institui que seria muito enriquecedor trazer pessoas palestrantes  que tivessem algo interessante para contar e acrescentassem algo aos alunos. Um desses dias, convidei uma "miúda" que fazia voluntariado em África em aldeias perdidas para contar as suas experiências. Foi uma sessão super interessante e na qual também eu aprendi imenso. Entre muitas peripécias ela contou a rir que lá não tinha nome. Chamavam-lhe "a Branca". E os habitantes da aldeia, logo pela manhã, perguntavam uns aos outros:
- Já viste hoje passar a branca? 
Contou também do desconforto que sentia em ter aquela cor de pele  num mundo onde todos eram escuros e a sensação de diferença que não era nada agradável!
Ser diferente é tramado. Seja por que razão for!

domingo, 29 de março de 2020

O que aprendi com o ensino a distância em 15 dias de prática


Foi assim num ápice. Fecharam as  escolas e agora começam a trabalhar com os alunos a distância. Só hoje tive tempo de procurar bibliografia extensa sobre o assunto, só hoje li, reflecti e concluí que a minha experiência ia, algumas vezes, ao encontro da teoria mas ficava, por muito recente e incipiente, muito aquém do já testado em anos e anos de estudo feito por  quem sabe.
Deixo algumas reflexões da minha experiência e possíveis caminhos em direção ao futuro.
- A sala de aula é realmente um espaço emotivo, afectivo e que faz muita falta a todos os envolvidos. Tive saudades deles!
- Comecei por enviar trabalhos longos com baixo nível de dificuldade para irem executando durante toda a semana. Os alunos não fizeram isso. Na hora destinada à minha disciplina, deitaram-se ao trabalho e queixaram-se da extensão da tarefa!! Explicação mal feita da minha parte, formatação da mente ainda na sala de aula normal. Os alunos também.
- Necessidade de explicar muito bem o que se pretendia. 
- Continuar os métodos utilizados nas aulas presenciais e com que eles já estavam familiarizados. Fichas de investigação com pesquisa no livro e em power points. Comentários a filmes. 
- Alguns alunos não tinham a tecnologia necessária, nem às horas pretendidas para a realização das tarefas.
-Alunos muito irrequietos, pouco motivados, pouco interessados e perturbadores foram os que se mostraram mais motivados no ensino a distância, entregaram os trabalhos a tempo, questionaram, tiraram dúvidas e conseguiram surpreender-me.
- Os alunos mais estruturados em sala de aula, que realizavam todas as tarefas de forma irrepreensível, demonstraram alguma insegurança, algum atraso na realização e alguma confusão.

Para o futuro:
- Será importante planificar todas as tarefas de forma cuidada e meticulosa tendo em conta os materiais que temos à disposição. Estas tarefas devem abranger os conteúdos ainda não lecionados.
No inicio do período dever-se-á ter planificadas todas as tarefas divididas por pastas que contenham o título, a informação aos alunos e os materiais a utilizar.
-As tarefas devem ter, à medida que decorre o período, um nível crescente de autonomia e que implique que os alunos comuniquem uns com os outros de modo a manter o contacto social mesmo que à distância.
-Devem ser consideradas tarefas que permitam uma avaliação das aprendizagens realizadas.
- A programação deve ser enviada semanalmente de acordo com o número de horas da disciplina, com tempo de entrega que poderá não ser igual para todos os alunos. Um aluno que tenha computador pessoal e internet ilimitada não tem as mesmas condições que um aluno que partilhe o computador com dois irmãos e a internet falhe a toda a hora.
-Deve ser utilizada a mesma plataforma para não aumentar a confusão e o ruído. 
-As tarefas devem ser diversificadas, podendo ser de pesquisa, de consolidação, de experimentação, de observação, desde que devidamente explicadas.
-Devem ser registadas todas as interações dos alunos com o professor, as dúvidas apresentadas, as dificuldades e o trabalho executado. Um documento excel servirá para acautelar todas estas informações..
-.Deve haver um contacto mais directo e frequente  com os alunos podendo mesmo envolver os pais e encarregados de educação sempre que o aluno não cumpra as tarefas apresentadas ou não responda quando questionado  ou simplesmente para dar um feedback positivo do trabalho realizado pelo educando.
-Deverá ser criado um canal para contacto dos encarregados de educação com o professor sempre que algo não esteja a correr bem.

Depois destes 15 dias, de muita hesitação e de trabalho  moroso por falta de prática deixo as três dicas mais importantes:
-Não respeitar o horário do aluno mas trabalhar com o espaço de uma semana ou mais de modo a poderem organizar-se com as famílias, face aos recursos que têm.
-Trabalho colaborativo o mais possível. Trocar materiais, trocar impressões, estratégias, descobertas.
- Planificar exaustivamente. Planificar. Planificar!

E é isto!

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Chegou Fevereiro cheio de incertezas



Muito trabalho e muito pouca vontade de o realizar. 
Preocupações imensas em noites muito longas e de insónia.
Sei que são fases e que o melhor é marcar uma viagem depois de tudo isto para poder descontrair e sentir-me leve.
Hoje foi dia de descanso depois de um dia de chuva dentro de uma barragem de outros tempos. Gosto sempre destas saídas onde é possível antever os alunos de um outro modo e com outras facetas. A sala de aula é muito castradora no que concerne às teias emocionais que se querem tecer.
A chuva continua. A força de quem sou, nem por isso.
Bom domingo.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Há muitos anos atrás...


Fui directora de turma de um grupo de alunos com o qual  aprendi mais do que lhe ensinei! Cada um deles, já a entrar na década dos trinta, me lembra muito ainda hoje.
A turma não era constituída por alunos com muito boas notas mas tinham valores, sentido de responsabilidade e de liderança, vontade de aprender coisas novas, motivação e capacidades de trabalho. Estava na turma uma aluna com necessidades específicas que naquele grupo de alunos e de professores  desenvolveu muito bem as suas capacidades.
Era o tempo da área-escola. Uma área transversal que pretendia englobar saberes de várias disciplinas num trabalho que envolvesse as potencialidades locais e levasse os alunos a conhecerem melhor o meio onde viviam. Soa familiar? Foi há muito tempo!
O tema escolhido foi a indústria local! Os alunos pesquisaram, contactaram as fábricas, marcaram visitas, elaboraram os guiões para a visita, tudo isto quase sem a minha intervenção. Fizémos visitas de estudo que correram muito bem porque eram eles que queriam saber, investigar e recolher material para a exposição que queriam montar para mostrar à escola o seu trabalho. Um must. Eu estava cada vez mais encantada e feliz.
A exposição foi montada no final do ano no dia marcado para que todas as turmas mostrassem o que tinham feito. Não foi necessária a minha ajuda. Lá estavam todos, com tarefas distribuídas, materiais prontos, e os guias das visitas definidos e com a matéria bem estudada. Um deles filmou o evento e outros fotografaram para memória futura. Algumas das fábricas visitadas já não existem. É o caso da fábrica do algodão que visitámos entre nuvens de algodão que quase nos tapavam o olhar. Uma risota. Impensável nos dias de hoje.
Ao longo do ano  dinamizaram vários eventos sempre da sua autoria, sem ser necessário motivá-los,  como  a comemoração do dia de S. Martinho no polivalente da escola que até fardos de palha teve como decoração não faltando o chouriço assado e as castanhas.
Aprendi com eles que era possível desenvolver trabalho e aquisição de conhecimentos  de uma forma alegre e motivadora sem grande stress por parte dos professores. Aprendi que era possível trabalhar fora da sala de aula sabendo que aquelas aprendizagens e competências eram essenciais para o seu percurso educativo. Aprendi que é fundamental  que os alunos tomem consciência da importância destes projectos para o seu sucesso educativo e que essa tomada de consciência é o ponto fulcral para um bom comportamento e para a realização de um muito bom trabalho. Aprendi que um bom ambiente de trabalho, dentro ou fora da sala de aula, é extremamente motivador para os professores e para os alunos. Aprendi que os alunos têm muito mais capacidades de trabalho e de liderança do que as que evidenciam. Aprendi que se incutirmos nos alunos uma grande dose de autonomia eles são capazes de nos surpreender. Aprendi  que é possível ter num grupo de alunos um grupo de amigos para   a   vida e que essa amizade se forja em momentos de aprendizagens significativas aliados ao prazer de aprender.
Lembro-me muito deles quando tento motivar os meus actuais alunos para visitas de estudo aliciantes, para conhecimentos sobre o meio, para a ligação entre o currículo formal e o informal e sinto uma resistência muito grande e uma apatia enorme.
O que mudou?

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Together we grow

A teaching team is only as good as the sum of its parts. Stressed and burned-out teachers don't benefit anyone. Effective teams understand the need for personal rejuvenation. They look after one another. (...)
Teaching is always on our minds, but sometimes we come up with our best ideas when we leave the job behind. We might go to the movies and find a surprising connection to an upcoming unit or read the newspaper on a Saturday morning and catched a related article. We never totally turn off our teacher brains, but we've learned how to shift into lower gears. (...)
Work smarter not harder.

in "Teamwork: Setting the Standard for Colaborative Teaching, Grades 5-9" by Monique Wild, Amanda Mayeaux and Kathryn Edmonds.

Vamos lá então para o trabalho colaborativo


Completamente a favor. Nada contra. Apenas uma reflexão sobre o que é este trabalho com hora marcada e ao cair da noite.
Tenho quase 40 anos de profissão. Sempre trabalhei colaborativamente de uma forma alegre, consciente e com grande repercussão nos alunos. Não tinha hora marcada. Algumas vezes, na preparação de grandes eventos educativos, prolongou-se pela noite fora, ouvindo os galos ao romper da aurora. Nem um queixume no grupo alargado de docentes motivados.
Quem quiser reforçar que o trabalho colaborativo começou agora será sempre desmentido pelos mais velhos.
Preparavam-se aulas teóricas e práticas e, apesar dos laboratórios serem rudimentares, cada um de nós trazia o que faltava para que não falhassem as experiências e os alunos pudessem aprender a redigir relatórios científicos, soubessem distinguir "observação" de "interpretação da observação" e de "conclusão da experiência". Bons tempos!
Faziam-se reuniões produtivas onde todos tinham hipótese de dar a sua opinião, dizer da sua justiça e acrescentar algo à ideia partilhada por todos. Os mais novos aprendiam  com os mais velhos, quer pelo lado positivo quer pelo lado negativo, e a falta de recursos nunca foi algo que travasse a nossa imaginação. Se queríamos algo que não existisse, deitávamos mãos à obra e tudo aparecia.
Conhecíamos de uma forma geral a vida de cada um o que levava a que se celebrassem aniversários, casamentos e outros momentos felizes e estivéssemos sempre presentes nos momentos tristes.
Hoje, mesmo com a hora marcada, sabemos pouco de cada um dos colegas que todos os anos chegam de novo. Não lhe conhecemos a origem, os estados de alma, a família. De vez em quando, um deles fica doente e até temos dificuldade em saber quem é que falta. O ambiente tornou-se impessoal, frio, distante, sem ter em conta o individual. Restam-nos os amigos de outros tempos, antes de uma certa ministra ter deitado pela rua da amargura o que somos e o que fazemos. Com esses ainda é possível o riso franco, o humor inteligente e as conversas sobre o nosso mundo interior.
Tarefas vazias, num espaço que se pretende ser cheio de tudo!
Anda assim o ensino público!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Actualidade

O ambiente educativo das escolas parece estar pior. Acontecem coisas que há dez ou vinte anos eram impossíveis. Hoje, um aluno de outro ano de escolaridade, abriu a porta da minha sala de aula e  começou a falar com o irmão que estava lá dentro ignorando o decorrer da aula, a minha presença e o facto de esta atitude ser completamente fora da caixa. 
Ontem, o irmão que pertence à minha turma afirmou, perante um técnico do Centro de Saúde, que a mãe costuma oferecer um copo de vinho a ele e aos irmãos mais novos. Confrontado pelo técnico respondeu:
- É só um copo!
Esta mãe ri-se imenso quando recebe participações porque não percebe o porquê dos castigos. Ri-se em frente dos filhos reforçando comportamentos menos próprios. O aluno tem boas capacidades cognitivas que não desenvolve face aos comportamentos desajustados e aos risos fora de propósito. 
A escola, apesar das grades, não é impermeável ao que se passa na família e à sociedade em que nos inserimos. 
O que me preocupa enormemente é que sei que há um comprometimento do futuro feito por estas famílias que vivem o dia a dia sem se preocuparem com o modo como educam e preparam os seus filhos para um futuro que se quer risonho.
A diferença entre o hoje e o antigamente?  
No antes também existiam famílias permissivas e pouco estruturadas face ao projecto educativo para os seus filhos  mas tinham a noção de que assumiam comportamentos pouco desejáveis e respeitavam a entidade Escola e todas as suas regras. No hoje, tudo é aceite e permitido. Tudo é engraçado, a vivência dos dias sem problemas e sem preocupações tomou a dianteira e deixou para trás a responsabilidade dos pais na educação dos seus filhos. O pensamento mágico de que tudo se resolverá tomou conta destas "famílias felizes e sem preocupações".
Até ver!