O dia seguinte não apagou tudo o que senti! As coisas boas a superarem as menos boas.
Que venham muitos mais anos e muitas mais noites de festejos! Amei!
O dia seguinte não apagou tudo o que senti! As coisas boas a superarem as menos boas.
Que venham muitos mais anos e muitas mais noites de festejos! Amei!
Foi um parto duro e comecei a manhã por me lembrar das dores que senti! Valeu a pena! Tudo e mais alguma coisa!
Esperei por este dia para fazer o meu pedido formal para a aposentação. Enviado o email de início do processo.
Em outros anos, lá muito atrás, de que já nem me lembro bem, vim para esta terra e comecei aqui a trabalhar. Em Novembro desse ano nasceu o meu primeiro filho!
Chegou o tempo de acabar o trabalho e de me dedicar a outras causas!
Parabéns meu filho! O dia 3 será sempre um dia especial! Como Tu!
O sol entra pelas grandes janelas da minha sala e apetece-me TUDO! Mudar de vida, experiências novas, dar asas à imaginação, sair da minha zona de conforto, mudar o meu estilo, VIVER!
Acabei de fazer umas compras online mesmo fora da caixa. Marcar uns procedimentos corporais para me mimar e melhorar. Olho para as minhas roupas e de nada gosto!
Apetece-me vender tudo e começar do zero! Será normal? Penso que sim! Nesta idade tudo é permitido!
Fui para o ginásio fazer uma sessão de máquinas que me soube pela vida. Os músculos ainda me doíam mas valeu a pena.
Passei ainda pela feira das velharias! Só para ver, sussurava a mente! A maior parte das coisas não me interessavam e encontrei tudo muito mais caro. Já quase a chegar ao carro, uns pratinhos verdes chamaram-me a atenção! Verdes como eu gosto. Vista alegre com o carimbo ainda do ganso. Doze pratinhos por 15 euros. É claro que não iria deixá-los por lá ao abandono!
Sei que não necessito pratos! Eu sei! Mas são verdes, lindos e da Vista Alegre. Não esquecer que eu tive um tio bisavô padre que era viciado em comprar peças da Vista Alegre que ainda existem e, algumas delas, cá por casa.
Se me perguntarem porquê, não sei responder!! Se estive em outras vidas, ali fui, com toda a certeza, muito feliz!
Aos três anos queria ir lá. Vibrava com os postais ilustrados que o meu primo enviava. Conhecia todos os cantos mais importantes da cidade!!
Voei pra lá em 1989 com 37 anos e dois filhos já grandinhos. Chorei de emoção dentro do avião enquanto sobrevoava os céus e, lá ao fundo, a cidade me esperava.
Amava voltar! Comer novamente nas ruas, andar por andar, conhecer os novos sítios, sentir a emoção do passeio pela ponte Brooklyn e pensar que ainda tudo era possível!
Ontem,quase chorei com a ideia triste de que já não será possível!
As roupas estão largas, há peças que já não consigo utilizar e continuo a olhar para mim como há um ou dois anos atrás. Apetece-me fazer penitências, reduzir as quantidades mas sei que o cérebro me está a trair e a tentar levar-me por outros caminhos, já trilhados e não recomendados.
Foco! Foco! Tenho idade para ter juízo! Adaptar a roupa que tenho, ficar muito contente quando umas calças 38 me servem e continuar no caminho iniciado há um ano! Fico triste quando vejo testemunhos de pessoas que perderam vinte e muitos quilos em menor tempo mas a idade é outra e eu estou a ganhar músculo o que faz toda a diferença. Este é o meu lado racional a falar.
Depois há o lado irracional que necessita de uma foto para olhar e descansar a mente!
Este tempo de Outono cheira a marmelada acabada de fazer em caldeirinha de cobre pelas mãos hábeis da minha mãe. Primeiro o marmelão com menos açúcar para ser comida mais rapidamente e depois a marmelada fina que haveria de chegar quase até à Primavera em malgas grandes cobertas com papel vegetal.
Era o tempo de fazer todo o tipo de outras compotas e o tempo de colocar ao sol, em frascos, as misturas para os licores.
Vejo o milho ao sol a secar em grandes toldos, agarrados uns aos outros por pedras e vigiados pelos avós que, não podendo fazer muito esforço, se sentavam e afugentavam as galinhas que por ali andavam. À noite, recolhiam-se para as lojas para reiniciar o processo na manhã seguinte.
No final do dia, quase ao anoitecer, levavam-se os burros a beber nas fontes. Esperava-se pacientemente que acabassem de matar a sede e voltavam para a palheira. Era quase sempre eu a fazer esta tarefa.
Logo de seguida, ia buscar o leite e havia dias em que tinha de esperar que o dono das cabras as acabasse de ordenhar e a mulher coasse o leite para eu o trazer.
Pela manhã cedo, antes de começar a escola, iam apanhar-se as nozes que tinham caído durante a noite para que ninguém as apanhasse.
Vinha depois o tempo das castanhas! Muito trabalho depois de vir da escola! Trabalho chato mas necessário porque trazia muito dinheiro! Nessa altura, a mãe contratava uma "criada" como se dizia. Dormia lá em casa e a função era ajudar a apanhar as castanhas. Era estranho ter uma pessoa que não era da família a viver o dia a dia connosco!
Chovia muito e o vento fazia-se sentir! Era aconchegante senti-los quando se estava a adormecer. Ainda não havia edredons e o peso dos cobertores era como uma armadura que nos protegeria de tudo.
Rezava-se sempre antes de cada refeição - " Obrigada Senhor por nos dares de comer sem nós merecermos..." o que dava, algumas vezes, azo a discussões sobre o merecimento ou não, depois de um dia a trabalhar!
As galinhas andavam pelas ruas identificadas com laços de tecidos diferentes presos às asas. Quando se avistavam " passarões" a sobrevoar a aldeia todos recolhiam as galinhas.
Não havia mercearia na aldeia. Comíamos o que havia em casa e a mãe deslocava-se uma vez de 15 em 15 dias a Gouveia para comprar bens como queijo flamengo, açúcar, manteiga, atum, etc. Coisas que a terra não dava. A verdade é que não necessitávamos o queijo flamengo mas as saudades que eu tenho daquele sabor! A mãe tinha duas tábuas, penduradas do tecto da loja, cheias de queijo da serra. Não se comia todos os dias e durava quase todo o ano. A renda do casal era paga, metade em queijo e outra metade em dinheiro. O Padre Samuel era a pessoa na aldeia que tinha mais queijo. Tinha até uma divisão junto à garagem só para esse fim! Não me lembro se os comia todos mas seria quase impossível! No dia de Páscoa, em todas as casas em que havia rebanhos, na visita Pascal era oferecido um queijo! Belos tempos!
Na loja também se penduravam as uvas em grandes cachos atados uns aos outros por cordel. Aguentavam-se e adocicavam para serem comidas no Natal.
A mãe e a avó tratavam de uma horta que se estendia por três arretos agarrados à casa. Semeavam cenouras, espinafres, cebolas, feijões, couves, morangos, alhos, nabiças, etc. No cair da noite era o tempo da rega e de matar as lesmas com sal para que não comessem as folhas verdes.
No meio disto tudo, havia ainda tempo para brincar. Tinha uma casa de bonecas montada no sótão onde dava largas à minha imaginação. Outras vezes, brincava nos balcões de trás, largos balcões de granito que davam acesso à horta.
Hoje vejo que era uma criança solitária. Inventava as minhas histórias e as minhas fantasias! Muito observadora e muito ligada à família. A minha avó materna foi uma figura central na minha meninice pela paciência e pelo amor que sempre me demonstrou. Não por palavras mas por atenção e carinho. Ainda hoje, as palavras vãs sem gestos que as acompanhem não me dizem nada.
Tanta coisa da minha infância! Que tempo de paz e de esperança de que tenho tantas saudades!
Querem ver que estou a ficar viciada!
Melhor que comer uma fatia de bolo ou outra porcaria qualquer!
Pensar em mim! Na vida que quero ter pela frente e não nas escolhas alheias!
Quanto mais vezes vou, mais vontade tenho de ir!
A continuar!
Martirizo-me um pouco por esta situação porque nunca estive atenta e nunca confirmei porque confiei sempre nos serviços que nos tratavam dos vencimentos. Nada que não se vá resolver mas ainda bem que dei conta a tempo.
No final da conversa remata ele: que isto nos sirva de lição para a próxima carreira profissional que iremos iniciar! Ri-me com gosto!
O tempo escasseia! Temos a sabedoria mas não temos substracto para a aplicar! A vida é muito torta!