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terça-feira, 9 de junho de 2026

Fazes (farias?) 95 anos!

 


Querida Mãe!

As saudades transformaram-se num enorme vazio dentro de mim! Fazes falta aos meus dias tal como te conheci sempre: solícita, cuidadora, atenta, ingénua, trabalhadora, idealista, altruista, bondosa, boa ouvinte, amorosa, com os teus objectivos de vida bem definidos sobre o que querias para nós.

Hoje, fica a lembrança destes dias de aniversário em que ficavas feliz por ver a família junta. Já nada é igual. Só a lembrança do que fui contigo, do que fomos como família, dos dias bons e dos menos bons, das batalhas que travámos e das memórias que construímos.

Laços que ficam. Recordações que me movem e me incentivam a ser como tu!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

4 anos sem ouvir a tua voz

 


Só a voz porque a presença estará cá para sempre. Tão bom quando os três irmãos se juntam e se fala dela, do que dizia, fazia e do modo como nos amava e cuidava. Tão dela!

Vejo-a nos seus risos mas também nas suas dores a que por vezes assisti, sem querer. 

Acredito que com ela ao meu lado, talvez os dias não fossem tão pesados. Fazes-me falta querida Mãe! 

Não merecias ter-nos sido roubada  por uma doença implacável, sofrida, que a cada dia te afastava, mais e mais, dos que te amavam. A tua bondade e o teu amor não mereciam!

Em pequena não podia viver longe de ti. Continuo assim! 

Hoje acordei com uma oração que costumavas rezar e de que só recordo os primeiros versos. Tentei na net mas não existe! Parecia um aviso para mim e estou com ela na cabeça ainda agora.

"Minha Mãe, minha senhora, minha estrela, minha luz,

sozinha te viste lá ao pé da cruz..."

Que cruz é esta que  ecoa no meu cérebro e por que razão acordei assim? Querida mãe! A lembrar-me que cruzes há muitas e é necessária coragem, como tu tiveste em toda a tua vida.


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Saudades do pai


 Acordei a pensar nele e na falta que faz aos meus dias. Ter-te por perto, fazia-me mais segura e empoderada. Sabia que nutrias por mim, além de um grande amor, uma admiração pelo que sou (ou fui!). 

O teu sentido de humor sobre as minhas características, eram abraços emocionais e o teu sorriso e o modo como me tratavas eram o sol da minha vida. Por vezes chamavas-me " a menina Eulália" e contigo eu sempre me senti menina. 

Gostavas que eu seguisse as tradições, gostavas de me ver fazer filhoses (como dizemos) ou temperar um cabrito que tu dizias eu fazer como ninguém. Há lá coisa melhor que ter o apreço de um pai?

Guardo as tuas cartas escritas com a tua letra tão característica como se fossem relíquias e, de vez em quando, vou revisitar esse passado que não volta. 

Gostavas da minha casa de praia e vivemos lá muitos bons momentos! 

Tinhas um humor tão teu e que é também tão meu que ainda agora me emociona. O meu está a perder-se por falta de parceiro na picardia.

Fazes-me falta para conversar contigo sobre a vida, sobre o que vale a pena, sobre as imperfeições que eu queria não existirem. Tu, com a tua inteligência e sabedoria, dir-me-ias que tudo faz parte da vida, que a vida não é um mar de rosas e temos sempre de seguir em frente. Embora sofresses, sabias (tal como eu) que tudo passará.

Invejo ainda hoje a tua inteligência e tenho pena, que por fraca visibilidade dos teus pais,  não tenhas sido um grande engenheiro ou um grande gestor!  

Tenho saudades da tua cumplicidade comigo e dos teus desabafos. 

Guardo comigo um dia em que quebraste a tua atitude mais séria,  quando já doente, me deitei ao teu lado na cama  e me aconcheguei a ti. Senti a tua ternura pelo gesto e, mesmo sendo pouco tempo, é das recordações mais doces que tenho. Tiraste a capa do querer parecer duro e ficámos só dois adultos que se amavam no mais fundo dos nossos corações. 

Saudades de ti, meu pai!

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Quando uma pessoa não tem juízo, o mundo é todo seu!

 


A mãe costumava sempre dizer esta frase quando alguém se excedia ou fazia algo que ia para além das normas estabelecidas com todas as consequências, normalmente negativas que daí resultavam! 

Queria dizer que as normas estabelecidas eram balizas ajuizadas para reger o mundo e que ultrapassá-las ou não as  cumprir daria  sempre  em asneira.

Quase todos os dias acordo com os ditos da mãe na cabeça! Coisas que já nem me lembrava e vêm do sono para me lembrarem que ela ainda está comigo em sonho. Até consigo ver a cara de desalento dela ao dizê-lo!

É bom, muito bom! 

Querida mãe!

terça-feira, 12 de agosto de 2025

15 anos sem te ver!

Era aqui que tu colocavas uma tábua entre duas dunas e ficavas horas ver o mar. Saudades!

Sentir-te, sinto-te todos os dias! Oiço a tua voz  e até sei o que dirias em certas situações. Sei também que estarias super feliz pelos teus netos. Eu iria contar-te o que fazem, o que planeiam e os teu olhos brilhariam como sempre fizeram com os meus planos e as minhas realizações. Oxalá que do outro lado tudo isto seja possível.

São boas pessoas, pai!

E eu? Olha vou andando tentando seguir o teu exemplo, rindo em conjunto com os meus irmãos, das tuas aventuras, das tuas piadas e da tua postura na vida!

Saudades imensas mas memórias de ti a top. 

Continuo a amar-te! Tanto!!

domingo, 26 de janeiro de 2025

Foi um dia bom! Muito bom!


 Irmão do meio tinha feito anos. Era hora de ir comemorar. Levantei-me muito cedo, peguei no carro, fui buscar irmã mais velha e  fomos  almoçar ao Porto. 

Quem pagou a conta? Parte dela foi paga por querido pai porque depois de 15 anos tinha sido encontrado, no meio dos seus papeis, um envelope com dinheiro. O resto pagou a irmã mais velha porque, segundo ela, os pais lhe pediram para tomar conta de nós e ela assim faz sempre que necessitamos de ajuda ou apenas de uma palavra de encorajamento! Grande mulher!

Sempre que estou com eles é quando sinto as raízes com maior intensidade. O amor dos pais, a sua união, o seu carinho! É como se eles estivessem ali também como tantas vezes estivemos. Sou mais eu, mais igual a mim própria, sem necessidade de ser outra.  Agora somos três órfãos a nadar nas ondas da vida a empurrar para a frente as mazelas, os sentimentos menos bons, os momentos  de solidão, o final das nossas vidas profissionais, o chegar de uma nova fase. 

Comemos muito bem e adorei estar com eles. Somos apenas nós  que sabemos a vida  em pormenor tudo o que vivemos e podemos triturar todos os detalhes desde o amor dos pais até aos episódios cómicos e de construção de almas. Somos o que vivemos. Vamos sempre lá atrás quando estamos os três. Não foi bem assim, não era esse livro, era outro, tu já confundes um bocado as coisas, e por aí adiante!!

Se os pais, onde estão, nos viram ontem, penso que devem ter ficado felizes e realizados com a educação que nos proporcionaram e com a nossa união. Como rochas até ao fim!!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Ainda em fevereiro fez um ano de orfandade

 


Tão difícil viver sem ti, mãe. Não como estavas, mas como eras antes quando estavas em casa e sorrias quando nos vias chegar. Saudades imensas do tempo de calmaria que eram aqueles fins de semana em que tudo fazias e dizias para que fôssemos felizes. E éramos!

Depois, tudo mudou numa época muito difícil para mim. Não te vi partir da tua casa mas imagino-a ao pormenor. Sofria noutro lado por essa altura  com uma intensidade tal que nem me lembro de quase nada desses tempos.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Está a ser intensa

 


Esta leitura está a ser intensa. Pelo serão fora, sem conseguir parar de ler, as lágrimas vão e vêm e a saudade queima. O lar é o da minha mãe e todos os espaços descritos são transformados, na minha mente, nos espaços que conheço de cor. 

Os nomes são diferentes e a história também é outra mas quando a personagem nos transporta pelas recordações e objectos da casa dela, uma emoção muito grande toma conta de mim. Já não sei se pela minha mãe, se por mim, se pela vida, se por este espaço de tempo em que aqui andamos que parece tão importante e acaba para todos de igual modo. 

Por isso já não me importo com coisas pequenas, com tricas de quem ainda não viveu o suficiente para saber que a velhice traz a sabedoria necessária para ver com clareza que tudo se resume a muito pouco.

Ontem, passei a tarde com uma amiga de longa data. Ambas beirãs, com muito em comum. Revivemos tempos em que fomos colegas e pessoas que ambas conhecemos. Uma sensação de vazio tomou conta de nós. O que era e como tudo se transformou. O que pensávamos e o que era na realidade!!Ela anda a aproveitar bem os tempos em que não conseguiu fazê-lo. Eu fiquei a pensar na coragem dela, mais velha do que eu, e na vontade férrea que sempre teve e a trouxe até aqui. Bom exemplo a seguir. 

Antes de seguir, como ela própria o disse, para a tal residência onde todos chegam no dia a isso destinado. Foi um dia nostálgico, o dia de ontem! Com alguma descrença no ser humano. Nascemos sós e morreremos sós. Tudo o resto, é só ilusão!!

domingo, 29 de setembro de 2024

Chega sempre o dia

 


Nunca consegui comprá-lo! Queria lê-lo mas tinha medo dos sentimentos de perda e de finitude ainda à flor da pele. Sabia que me iria fazer sofrer. Pegava nele, passava algumas página e lá ficava.

Hoje, apeteceu-me a ternura e os sentimentos que me está a trazer. Apeteceu-me estar mais perto do que sentiu quem realmente me amou. Mesmo que não tenha sido igual, posso sempre fazer pontes entre ela, a minha mãe, e eu daqui a alguns (poucos) anos. 

Está a ser intenso mas já não fujo. Toda a vida o fiz. Toda a vida fui um pouco avessa ao sofrimento, desviando a atenção, desculpando os outros, pondo as culpas em mim. Acabou essa fase!

Mesmo que me consumam com culpa que não é minha, mesmo que me torturem a mente, mesmo que me odeiem sem se saber porquê, mesmo que me ignorem, continuarei sempre a saber o que valho! Não é assim, mãe? Tu sabias o meu valor! Mais ninguém sabe!

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Morreu o Eugénio!

 


Tinha 55 anos e era meu colega e amigo. Convivemos na mesma escola durante muitos anos. Ensinava Geografia e tinha uma legião de fãs entre os alunos. Sempre correcto, sempre a trabalhar, emanava uma seriedade de que eu gostava. Ficou doente quase ao mesmo tempo do meu corte do tendão de Aquiles. Ia perguntando por ele até saber que tinha deixado de atender o telefone. Nunca mais voltou! Morreu hoje de madrugada. Já não falava mas mesmo quando ainda o fazia nunca falou na morte. Nunca colocou essa hipótese e sofreu calado tudo o que a vida tinha destinado para ele. Não merecia. 

 Maldita doença. Entra de mansinho, com sintomas que podem ser tudo e destrói tudo por onde passa.

Vamos ter saudades tuas.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Há 14 anos que não sinto a tua voz nem te vejo

 


Na varanda da casa de Coimbra a ver-nos partir

Mas continuo a ouvi-la e a sentir-te junto a mim!

Morreste-me numa madrugada quente nos cuidados intensivos do hospital! Se eu esperava? Penso que na minha ingenuidade acreditava que, tal como das outras vezes, sairias  pelo teu pé e sentar-te-ias à mesa de camilha a olhar para todos nós com o teu olhar atento e carinhoso. Não foi assim.  O que sempre te regeu a vida, sentiu que era hora de descansares.  Talvez fosse!

O teu corpo aguentava já com muita dificuldade tudo o que lhe pedias! 

Tanta falta que me fazes meu pai! Tanta falta!! Que orfandade em que me deixaste minha alma gémea que percebia tão bem como eu pensava, o que eu queria e o que me fazia feliz!! 

Gostava de ter vivido mais tempo contigo! Tempo inteiro sem interrupção. Sinto que o nosso amor foi crescendo entre os espaços de ausência e talvez não tivesse de ser assim!

Continuas comigo e eu contigo. Seremos assim até à eternidade.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Que saudades, que saudades!

 


E não digo mais. A Europa rima com férias de Verão e filhos pequenos.

A Europa que visito agora rima com nostalgia e ainda alguma sede de conhecimento. 

domingo, 26 de maio de 2024

Soltar palavras e sentimentos


 Não sou escritora mas gosto de palavras. 

Anda há dias para escrever um texto que trago na cabeça. Terá de reflectir o amor, a amizade, os laços, as memórias, o alento e o legado de uma pessoa muito querida. Tenho tudo na cabeça mas ainda não comecei.

Sei que existirá o tempo certo para que as palavras se alinhem e transmitam o que quero dizer. 

Vou pensando nele e em tudo o que representou na minha vida. Os momentos que deixou e o que transformou. Os exemplos de homem bom que tentamos não esquecer. 

Nunca vivi com ele mais do que o tempo das férias de Verão! No início, só de 2 em 2 anos. Mais tarde, vinha todos os anos. Cravados em mim, imensos exemplos e gestos de carinho. 

A certeza do amor que nos tinha. 

Vai sair um texto bonito. Eu sei. Está lá tudo. É só harmonizar.

terça-feira, 26 de março de 2024

Por que razão eu gosto tanto desta casa

 


Da casa da praia dos longos verões e da família reunida. Houve alturas em que o quintal se enchia e os filhos pequenos brincavam na rua sem grande problema. À noite dormiam como anjos depois de saltos na areia, correrias e  corridas de bicicleta. A praia era mesmo ali e montes de areia entravam por toda a casa.

Os adultos, por vezes, entravam em modo maluqueira como aquele dia em que apenas comemos marisco, ao lanche assámos chouriços no álcool numa praia qualquer acompanhados de um bom champanhe e acabámos a noite num bailarico de aldeia. 

A vida foi mudando. Cada uma das crianças de então já tem a sua família mas é tão bom quando se juntam todos novamente com as suas crianças e se vê a vida a evoluir no seu ritmo certo.

Saudades do Amaro que era, muitas vezes, a alma desta animação. Saudades dos risos felizes da minha mãe à porta da cozinha vendo a família toda reunida!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Encontros bons

 


Ao sair da frutaria, encontrei uma antiga colega e amiga há muito na reforma. Costumamos ficar a conversar e hoje não foi excepção. Recorda-me outros tempos da escola pública onde a aprendizagem efectiva era muito importante e a disciplina também. As conversas da sala de professores eram produtivas, havia um verdadeiro espírito de entreajuda e, normalmente, versavam temas pedagógicos e didácticos de grande importância. O que eu, professora com vinte e muitos anos aprendi com estas queridas colegas! Eram exigentes, não se importavam de dizer que estava mal, mas davam dicas para que ficasse melhor. Tinham sempre um sorriso nos lábios e já assumiam, muitas das vezes, o papel da família que a crise não é tão recente como parece. 

Continua com a mesma doçura, o mesmo sorriso, o mesmo saber ser e estar de antigamente.

Acabei a conversa com um " fazes muita falta aos meus dias"! É tão verdade!

Agora ninguém conversa, presos aos computadores, às tarefas burocráticas que, a maioria das vezes, não acrescentam nada. Não há transmissão de experiências, não há piadas, não há histórias boas de sucesso para partilhar. Quando há espaço, aparece unicamente o lamento.

Tenho saudades da outra Escola! Daquela que os meus antigos alunos, agora pais dos meus actuais alunos pensam que ainda existe quando, na recepção do início do ano, me entregam os seus filhos! Eu tento dizer que sim mas não acredito.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

A falta que me fazes

 


Hoje faz dois anos que partiste pela madrugada.

Bastava estares presente para eu entender que o meu mundo estava mais protegido. Sempre estive contigo e, de todas as vezes que nos separaram, eu gritei, chorei, implorei até que voltei para ti. Não pôde ser assim até ao final mas foi com muita dor que vivi esta separação. Assisti ao teu declínio, à tua memória a ir-se embora até ao dia em que não me conheceste mais. 

Ficaste ansiosa, nervosa, tu que gostavas de ter sempre tudo sob controle. Nessa altura  já não o tinhas e a tua expressão era de aflição. Foi o tempo do Covid para piorar toda a situação. Separadas por um vidro, estendias a mão para a superfície fria e eu, do lado de fora, estendia também a minha mas não existia o calor da pele. Eram só 15 minutos que pareciam 5 e  ias embora e eu a ver-te ir, pensando na vida, na injustiça, na maldita da doença que todos os dias me afastava mais de ti, como eras antes. 

Quando te vi novamente com a tua expressão doce de Mãe, foi no caixão! Coisa estranha que só a morte poderá explicar. 

A falta que me fazes, continua cá nos momentos mais alegres. Nos tristes, é uma falta só para mim porque nunca te iria contar os meus problemas  para não sofreres  por mim. 

Querida mãe! Tanta saudade!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Tradições que se querem preservar

 






A minha mãe queria muito um forno a lenha. Um dia, o meu pai mandou construir um para ela. Em todos os almoços e jantares de festa, o forno era o rei. Aquecia-o logo pela manhã com bastante lenha. Quando o tijolo estivesse esbranquiçado era tempo de puxar as brasas, lavar o forno da cinza e colocar lá dentro os melhores petiscos. Depois de cozinhados, ainda lá colocava uma panela com feijão ou grão, com muita água, que cozia lentamente até  à noite sem ser necessário vigiar.  Sempre fomos ajudantes destes lautos almoços e aprendemos com ela todas as técnicas e truques. 

Vamos continuar a tradição. Nesses dias, ela fica mais presente! A mãe fazia assim, a mãe deixava o forno meio aberto, a mãe batia  o pão com a mão para ver se estava cozido, a mãe cortava a carne de certo modo para as bolas de carne... e assim vamos treinando a arte. 

Saudades de te ter por perto quando, nessas alturas, todos pensávamos que eras eterna!

terça-feira, 1 de novembro de 2022

O que sinto em dias especiais

 


Esta foto foi tirada num momento hilariante em que as três tentávamos uma selfie. Ficou o teu ar ameninado e a cumplicidade de mãe e filhas. 

Chegámos ao fundo da alameda central e lá estava a tua foto coberta de pingos de chuva!! Foi estranho saber que estavas ali quando antes eras tu que nos guiavas no arranjo das campas dos entes queridos. Éramos só as duas irmãs, olhando de soslaio, como não querendo acreditar que já ali estavas entre os teus.  Já não havia o som da tua voz, nem a pressa dos teus passos.  A serra parecia mais silenciosa  e a solidão que nos envolvia crescia a cada flor que colocávamos. 

Um sentido da orfandade em que nos deixaste tornou-se gigante. 

Qual será o ano primeiro em que também eu terei a foto sorridente numa qualquer placa de granito?

Voltar ali é relembrar não só o teu amor por nós mas também o triste sentir de que já não te temos para que nos defendas de todos os males e contratempos. Saber que te tínhamos tornava-nos mais fortes e mais destemidos. Agora estamos entregues a nós e aos nossos pensamentos no dias bons e, ainda pior, nos dias maus.

Dia triste este em que, mais fortemente, sentimos a saudade do que foste, querida mãe.

domingo, 24 de abril de 2022

Estes dias estranhos

Os teus goivos estão floridos  e bonitos. Continuam a cheirar bem!

 Foste embora pela madrugada. Mentia se dissesse que não antevia esse momento. Cada vez mais fraca, cada vez com mais dificuldade em articular, as veias muito azuis nas tua pele sempre tão branquinha e fina e uma fragilidade que não era tua.

Este tempo horrível de não visitas fez-me tanto mal! O vidro que separava dois corpos que só queriam sentir o calor um do outro. Estendias a mão para o vidro e eu colocava a minha mas era só vidro frio o que se sentia! Um mero quarto de hora a olhar para ti, a ver o teu olhar horrorizado, nunca conformado,  porque nunca foste mulher de te conformar. Mulher de luta, sim! Pelas tuas causas, por tudo em que acreditavas.  E foram tantas as lutas mãe!

Quando  regressavas à sala, ficava a ver-te ir sabendo que podia ser essa a última vez que te via com vida. Até que essa vez chegou sem o saber e lembro-me que te disse que ia  só a casa e voltaria para ti. Penso que já não percebias mas eu sentia mais paz em saber que não pensavas que te abandonava. Logo a ti, que nunca  me abandonaste!

A vida sem ti não é igual. Uma solidão imensa apoderou-se de mim. Um tempo de abandono em que parece que ninguém se interessa por mim como tu. Uma orfandade imensa. Uma vontade imensa de voltar lá para trás e viver novamente contigo.

Tenho saudades do teu riso, da tua ingenuidade tão engraçada  frente à maldade humana,  da tua generosidade para com todos, do teu amor por nós sempre traduzido em abnegação, em sacrifícios,  em  ajuda. 

Quiseste para nós o melhor do mundo. As melhoras escolas, a melhor formação, as melhores oportunidades, a melhor educação.  Sabias onde nos querias e os valores  que nos querias  transmitir  ficaram  gravados em nós para todo o sempre. 

Tenho tantas saudades dos outros tempos em que ainda conversávamos sobre as nossas vidas! Tenho pena de não te ter dado  muito mais abraços quando precisavas. Sabes, a tua grandeza tornava lamechas os gestos de ternura. O teu amor era dedicação, conversas e muito trabalho à mistura. 

Grande mãe, grande filha, grande mulher! Tenho um orgulho imenso em ser  tua filha.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A minha mãe

 


É dura como aço. Viveu dando-se sempre aos outros em primeiro lugar. Ela vinha em último se alguma vez chegou a vir. Tratou dos seus velhos, não como um fardo mas com a certeza do que é, sem receios ou medos que a impedissem.

Para nós tinha uma missão primordial: estudar, saber, tirar um curso. Nunca deixou que se questionasse este futuro. Por ser tão certo, aconteceu! Não me lembro de grandes festas de licenciaturas, de grandes abraços efusivos por estar a acontecer. Era o teu destino. Ponto! Cumpriu-se!

A ternura da minha mãe media-se em gestos e em acções. Nada de frases piegas, nada de mimimis. Amo-te, faço tudo por ti e tu sabes porque quando me pedes algo, eu fecho os olhos e deixo que aconteça. Por vezes, acompanho-te e vivo também os teus sonhos.

Implacável com o saber ser! Uma série de adjectivos saídos em rajada faziam qualquer um de nós voltar à linha. Que relice, dizia ela. E nós queríamos acabar com a relice dela.

Gostava de flores mas no jardim. Nada de ramalhetes como eu gostava de distribuir por toda a casa. As flores são para crescer e não para definhar em jarras por cima da lareira. E todos os domingos as regava para que permanecessem viçosas.

É dura a minha mãe. Já não há mães como ela! Toda a força com que empurramos a vida vem dali! Choramos de vez em quando, aliviamos as dores mas continuamos dando aos nossos o que aprendemos com ela.

Criou cimento entre nós sem saber dos livros como se faz. Vivemos tanta coisa juntos, envolveu-nos tanto nos seus dias que ainda hoje, em tudo o que fazemos, ela está ainda lá connosco.

Foi mulher de trabalho. Árduo, duro mas sempre com sentido.

Foi mulher de saudades que lhe partiam o coração mas que escondia só para ela.

Quando o meu pai partiu penso que desistiu de resistir! Abandonou-se!

Os seus velhos tinham partido todos e agora o seu companheiro de uma vida, a sua paz fora do corpo, tinha ido também.

Começou aí o seu desinteresse pela vida e chegou até hoje. Em confinamento, num lar onde não há visitas. A demência apagou memórias mas lá no fundo dela própria sabe quem é!

Apagou-se o seu olhar inquisidor de outros tempos. Aquele olhar ao qual nada se podia esconder. Ficou  a mansidão de um olhar triste, sem interrogações, porque já não há nada que queira saber.

Ainda nos reunimos os três, de vez em quando, à lareira da casa de sempre. Numa das últimas vezes entre conversas de memórias que só nós conhecemos, eu juro que a vi lá à mesa com o pai e a vi a rir das graças que se diziam. Devia ter prá aí 60 anos.

Na véspera dos meus 60 anos, este texto sobre a mãe andava a borbulhar no meu coração.

Será o teu exemplo que me conduzirá nesta nova década.

 Mãe! Já não há mães coragem como tu!

Devo-te tudo!