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quinta-feira, 30 de abril de 2026

O tempo muda! Acompanhá-lo? Ou tentar mudar?

 


Tenho alguns alunos em apoio. Aquele perfil de aluno que em sala de aula, com todos à volta, não se concentra mas num ambiente de Biblioteca  vão começando lentamente a concentrar-se e pelo menos realizam tarefas. 

Hoje um deles, depois de lhe ter chamado a atenção sobre algo que estava a fazer mal respondeu:

-Ó prima está muito bem assim!

Como disse? Prima? Desde quando? 

Sarabanda sobre os diferentes níveis de linguagem e a necessidade de os utilizar em ambiente próprio. Eu sou sua professora e não me vai tornar a chamar prima. Ponto!

Calou-se mas não muito convencido! Para o cativar, depois da tarefa realizada, quis saber um pouco da sua vida! Calcei por momentos os sapatos dele e não foi fácil perceber o quanto esta cabeça carregava!  

Cada vez mais estas crianças têm vidas complicadas, emocional  e financeiramente. O modo de reagir não é o melhor mas, pouco a pouco, lá iremos chegando, perguntando-lhe amiúde  pelo seu Rio de Janeiro que deixou para trás e de que tem tantas saudades! 

sábado, 14 de junho de 2025

A Matemática

 


No tempo da pandemia, tinha uma turma do 9º ano à qual pertencia uma aluna com algumas dificuldades mas com uma grande vontade de superação. Tinha alguns pontos fortes na área do audiovisual que até me surpreenderam. A Matemática falhava ali um bocado e eu, com directora de turma dizia-lhe sempre o mesmo: a Matemática faz parte da vida. Tudo é Matemática!

Ontem, numa caixa de supermercado encontrei-a. Sorridente, atarefada e a querer fazer bem feito. E Então? como te estás a sair?

- A professora tinha razão! A Matemática está em tudo. Isto é só Matemática! Riu-se e continuou para outro cliente.

Fiquei a pensar nela toda a tarde. Conselhos, ditos, abordagens, que anos mais tarde fazem todo sentido no lado mais prático e real da vida de cada aluno.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Notas soltas sobre educação.

 


Há já algum tempo que não tenho turmas inteiras para lecionar. Faço acompanhamento de alunos com dificuldades, em tutoria ou em apoio directo na disciplina de Matemática. Tenho umas horas em que posso substituir professores em falta e, algumas vezes, vou à sala de aula para estar com estas turmas. Normalmente são do 3º ciclo!

Nunca me recuso a ir, e vou-me encostando à secretária para não estar tanto tempo em cima do pé o que me provoca dor. 

Que conclusões tiro destas aulas? Aterradoras!

Os alunos (não todos) têm comportamentos que há uns anos, não muitos, eram apenas das turmas de currículos alternativos, daqueles alunos, tão, tão desmotivados que necessitavam uma abordagem diferente para concluírem o 9º ano de escolaridade. Nestas turmas, são alunos normalíssimos de 12, 13 anos que consideram que dizer asneiras na aulas é banal, que conversarem uns com os outros de uma ponta da sala para a outra também, que rir do que a professora diz também é admissível, que jogar ao jogo da forca é o passatempo ideal para passar 50 minutos. São arrogantes, mal educados, não sabem estar em sala de aula e admitiram que não dão valor à aprendizagem, não estão ali para aprender e não se importam absolutamente nada com isso. Raia até a imbecilidade!! Considerando que não estou perante uma turma de alunos com problemas diagnosticados, concluo que este será o ambiente das aulas ditas normais. Não sabem quem são os professores, não os conhecem pelo nome e, perante a minha estranheza, um deles respondeu que não é obrigado a saber o nome dos "profs".

Andam por ali umas alunas que me pareceu quererem aprender e progredir o que considero ser difícil neste ambiente perturbado de aula. 

Concluo que algo está a falhar na educação destes jovens mas não da responsabilidade da Escola. Com tantos anos de ensino sei diferenciar o que é "garotice" do que é ser intrinsecamente mal educado, sem valores, sem regras e sem atenção por parte da família. Crescem como ervas daninhas, de actividade em actividade, preenchendo tempos que deveriam ser de calma e de sossego em família para que a alma e os valores familiares também crescessem ao mesmo tempo que os músculos e a má educação. Tal, não está a acontecer!

Muita apreensão! 


sexta-feira, 2 de maio de 2025

Conquistas boas

 


Tenho um aluno que apesar de ser dócil, até aqui, foi muito difícil ensinar-lhe algo. Desviava a conversa, fazia com que o tempo passasse e a Matemática a ver navios! Não ajudava o facto de serem dois tempos seguidos o que para uma cabeça de 10 anos e com alguma confusão não era favorável.

Hoje, chegou sorridente e com as páginas do livro abertas e sabia os exercícios que era para serem realizados. Trabalhámos durante 100 minutos, resolvemos todos os problemas e penso que  ficou a saber fazer. 

Saí feliz!

É necessário não perder a esperança! A Escola da esperança é o que nos salva.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Coisas engraçadas

 


Tenho no meu horário de trabalho duas horas para poder substituir professores que não puderam comparecer. Ontem foi um dia desses. Quando cheguei à entrada do laboratório percebi que iriam ter a disciplina de Ciências e quando me viram começaram todos a gritar: queremos dar a respiração, queremos a respiração! Considerei estranho, mas, já sentados, perguntei-lhes se andavam a dar a respiração mas que eu não iria avançar nos conteúdos porque não era a minha função. Explicaram que estavam a dar a puberdade mas era outra a  respiração de que eles falavam. Eu já tinha estado com eles no anterior semestre e tinha ensinado técnicas de respiração de relaxamento, a chamada respiração abdominal. Fizemos, nessa altura, um exercício de relaxamento o, que para meu espanto, eles cumpriram e no final disseram ter-se sentido mais descontraídos. 

Expliquei ainda que poderiam sempre ter esta ferramenta para utilizar sempre que se sentissem mais stressados ou ansiosos, nomeadamente antes de testes ou  outras tarefas avaliativas. Ontem, alguns deles explicaram que continuaram a realizar esta técnica, uns antes de  testes e uma das meninas disse que era muito benéfico antes das provas de patinagem que praticava. Falava com as colegas mas uns minutos antes, recolhia-se sozinha e respirava profundamente tendo consciência do corpo e que as provas, a partir daí, lhe começaram a correr melhor. 

Fiz como eles pediram o exercício de relaxamento, respirando profundamente e tendo consciência do corpo e das partes que estão  contraídas e, pouco a pouco descontraindo o corpo até o sentir colado e pesado em cima da cadeira. Alguns fecharam os olhos, outros mantiveram-nos abertos. No final, sentiram vontade de se espreguiçar o que fizeram longamente e com muita satisfação. 

Disseram que saíram novos e que este exercício lhes era muito útil. Incentivei a que o fizessem todos os dias, mesmo em casa, durante 10 minutos. 

Sozinha na sala fiquei a pensar: um processo tão útil para os alunos desde novos e que deveria ser ensinado a todos. Num tempo em que se fala tanto de ansiedade, não seria de pensar munir os alunos destas ferramentas para que não chegassem a adultos sem conseguir gerir os picos de stress e entrando, por vezes, em estados já mais perigosos do ponto de vista da saúde mental e física?

Já tive implementada esta estratégias há já alguns anos nas turmas que lecionava  que começavam sempre por 5 minutos de relaxamento. A aula corria muito melhor, os alunos ficavam mais concentrados e depois de 15 dias já eram eles que, em silêncio, entravam na sala e começavam imediatamente o exercício.  A avaliação deles foi muito positiva. 

Coisas simples e pequenas mas que fazem toda a diferença. 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Os alunos, essa parte importante.

 


Dizem que a profissão de professor não tem reforço positivo mas não concordo.

 Quando passados alguns anos, vejo um aluno que me deu imenso trabalho em conversas infindáveis, que tinha uma vida pessoal tramada, num posto profissional com sucesso, o meu dia ficou ganho. Acontece muitas vezes e é uma grande felicidade. 

Há também aqueles dias em que sentimos que não estamos em sintonia que o esforço não é recompensado e más atitudes vêm do outro lado.  Há que aceitar, esperar e ver no que termina. Hoje foi um desses dias. 

Há também aqueles queridos alunos, cheios de pontos a melhorar que mesmo sabendo que não estou vão à minha procura porque posso ter vindo mais cedo. No entanto, em tempo de aula, há imensas traquinices, amuos e por vezes pouco trabalho. A imperfeição da vida e dos humanos.

Já disse que gosto de alunos?

quarta-feira, 26 de março de 2025

Coisas nubladas no pensamento

 


Quando me lembro do tempo da pandemia tudo é estranho e confuso. Foram dois períodos em casa e começo a confundir os dois períodos porque se passaram com turmas diferentes em anos letivos diferentes. 

Tirei esta foto com uma turma querida depois de termos regressado à escola e ainda todos de máscara.

Dei com ela o outro dia e tudo me pareceu irreal. O certo é que as aulas eram assim, estranhas e diferentes. Tinha dificuldade em perceber os alunos mas os olhos falavam muito.

Onde andam agora queridos alunos? 

domingo, 16 de março de 2025

Como vejo os alunos

 


Nunca de forma estática. Vejo-os sempre no caminho em busca do futuro. É minha função dar-lhes algumas armas como a auto confiança, a beleza do mundo, a relatividade da vida, a certeza de que vão conseguir alcançar os seus sonhos e claro, alguma sabedoria em conteúdos que os faça brilhar. Alguns têm vidas tão difíceis que fico a pensar se eu, no lugar deles, conseguiria o que eles conseguem.  Dar-lhes a mão neste pedaço de caminho sabendo que a estrada é longa e os obstáculos muitos. Deixá-los seguir depois mas sabendo que, de quando em vez, se lembrarão do incentivo, das palavras de apreço de que necessitarão para seguir em frente no caminho da vida. 

Ser professor é  ser guia sem chegar a ver a meta mas sabendo que ajudou no caminho percorrido.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Os dias de hoje na Escola

 


Tenho pensado e reflectido muito nesta questão. Estarão os alunos diferentes? Serei eu que perdi a paciência para má educação, falta de interesse, arrogância balofa e falta de valores?

No entanto, vejo todos os docentes a falar a mesma linguagem o que me leva a pensar que anda aqui um grande crise, seja lá do que for. 

Os conhecimentos são muito poucos e o raciocínio anda pela hora da morte. Deixo a ressalva que só acompanho os alunos com maiores dificuldades  e há, com toda a certeza, um grande grupo dos alunos interessados e bem educados.

Mesmo assim, o grau de má educação, a petulância,  a falta de interesse, o não saber estar, a falta de regras, a falta de conhecimentos básicos (muitos não sabem ler nem escrever) o não saberem o que andam a fazer dos dias e o que esperam da vida está muito pior. 

Há dias negros com estes alunos a quem quero ajudar, fazer render o tempo em que estou com eles, entusiasmá-los mas depois acabamos por não conseguir. Muitos problemas psiquiátricos pelo meio. Ontem, estive 50 minutos com um aluno a andar à volta da sala a falar (vá lá, sobre Ciências) sem parar. A cada tentativa de o sentar aumentava a velocidade. Lembrei-me de um livro que li há já algum tempo cujo título era - o mais difícil é sentá-los!! E é mesmo!

Nos intervalos, circulam sonâmbulos, agora que lhes retiraram os telemóveis para  conviverem! Penso que já não sabem o que isso é!!

No final disto tudo, penso, com um grande sentimento de alívio, no pouco tempo que me falta para sair da Escola. É triste, nunca pensei chegar a este ponto do caminho mas é a verdade pura. Não quero assistir ao fim do show. Oxalá tenha um final feliz!

Tenho mesmo de acreditar que vão encontrar um caminho no meio deste caos. Daqui a uns anos, volto a escrever!!!

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Sempre gostei de alunos difíceis

 


Os bonzinhos que tudo têm e dedicam a maior parte do seu tempo a competir pela nota, pelo prematuro lugar ao sol, não me seduzem. Depois de tantos anos a seguir percursos sei que não leva a nada esta competição excessiva, muitas das vezes, incentivada pelos pais e que os torna adolescentes perfeitamente infelizes. A vida se encarregará de lhes mostrar que não é esse o caminho. Não quer dizer que os trate mal nem dê o melhor de mim, mas não me ficam no coração. Não valorizo a cabulice mas a competição deve ser connosco e não com os outros. 

Dizia  que gosto de alunos difíceis. Entrar-lhes na alma e perceber por que razão são assim. Encontram-se vidas tão, tão difíceis que me admiro como continuam a caminhar sobre tantas pedras e sem defesas. Gosto de falar com pais e encarregados  de educação, perceber o porquê  e tentar ajudar.

Quando deixo de ser professora deles fico com muitas saudades. Tenho-me lembrado do Filipe! Fui professora e directora de turma  dele no 9º ano. Refilão, tinha comportamentos em outras disciplinas conducentes a processos disciplinares e não era muito simpático para alguns professores. Eu gostava dele e ele sabia. Inteligente mas cábula, no final do ano, quase a fazer 18 anos, ficou retido.  Não consegui virar a situação e ainda hoje considero  uma falha minha que não me perdoo. 

Tinha de se inscrever nas provas como aluno externo e como não o fazia telefonei-lhe. Que não vinha porque não havia autocarro. Fui buscá-lo a casa, inscreveu-se e tornei a levá-lo. Admirou-me o carro e aproveitei para lhe fazer ver que na vida tem de se lutar para se ter as coisas de que gostamos. Que aquele carro só o tinha porque já tinha 60 anos mas antes,  quando era mais nova, não era este o carro e nada me tinha caído do "céu aos trambolhões". A vida era luta e ele tinha  de se fazer à vida. Acabou por reprovar nas provas e no ano seguinte acompanhei-o como professora coadjuvante. Chamava-me "a minha segunda mãe". Sabia imenso de Ciências e a professora titular admirava-se por ter ficado no 9ºano um aluno já com 18 anos e a saber tanto e avivava-me a culpa de não ter metido na cabeça daquele conselho de turma alguma sabedoria da vida e da volatilidade das coisas. 

O outro dia estava na porta da escola. Abraçamo-nos com ternura. Homem feito, apresentou-me a namorada que me pareceu querida. Falámos dos outros tempos e segredou: naquela altura estava a passar por uma grande crise! Tão bom que recuperou. 

Continuo com saudades dele. Foi uma turma difícil mas que tinha  gente que necessitava de apoio, de mão amiga, de alguma assertividade e mão firme nunca esquecendo as feridas que todos os dias lambiam para não ficarem piores. Queridos alunos. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Gosto mesmo muito de alunos


 Se há algo que posso dizer com toda a certeza é mesmo isto: adoro estar com alunos. 

Este ano, tenho os alunos que têm algumas ou muitas dificuldades. Vão em pequeno grupo ter aulas comigo. Adoro entrar-lhes na alma, com muito cuidado para não os ferir, e perceber o porquê de certos comportamentos e atitudes face ao mundo, à aprendizagem e à escola. 

Hoje tive o J.  sozinho porque os colegas faltaram. Falámos na apresentação oral de Inglês e dos temas que tem à disposição. Disse que ia escolher o tema "quem sou eu" e deixava o tema " a minha família" porque no ano anterior tinha sido muito complicado. O J. têm um sorriso lindo e um problema de dicção que o torna único. Perguntei porquê e  respondeu com um sorriso: não tenho fotos do meu pai, então procurei uma foto de um homem qualquer e coloquei no  slide. 

Pelo meio, contou que se levanta todos os dias às 6 da manhã para acordar o primo que vive com eles e vai para uma escola especial. Como o primo nunca quer acordar, demora sempre imenso tempo. Apanha o autocarro às 7.30h e chega à escola às 8h. Vive também com o avô e avó.

Que motivação se espera deste miúdo? Que  é que se pode pedir mais? 

Se pensarmos mais nas almas e nos problemas que cada um carrega, talvez sejamos mais benevolentes quando falamos deles. 

Não são todos iguais é claro. Há alguns super mimados e parvos que tudo têm e ainda pedem mais. 

Mas estes alunos com estas vidas tramadas, dá vontade de os pegar ao colo e os transportar para uma vida melhor, um canto onde possam estudar bem todos os pontos das disciplinas, sem o primo que não quer acordar dentro das suas limitações e sem a noite da madrugada a dificultar todos os pensamentos e a vinda para a escola. Estou contigo J.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Em Março comecei a trabalhar novamente

 


Foi bom ter rotinas apesar de chegar a casa cansada e com o pé a doer. Rever amigos e colegas deu-me um novo fôlego que a casa não traz. Recordo-me da minha turma preferida de antigamente ter saído de uma sala aos berros de alegria para me vir receber. Penso que não era necessário mais nada para me sentir feliz. São estes momentos que também  dão sentido à minha vida. Gostava imenso destes alunos! Tanto!

Sentir que o pior já tinha passado e conseguiria voltar ao antigamente.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Começar bem o dia

 


Estive desde as 8.30h com os alunos com PEA (perturbação do espectro de autismo) e fiquei maravilhada  com o trabalho que estes alunos realizam. Nem todos, mas quase todos. Um deles, tem especial talento para as artes e, naquelas duas horas, aprendi imenso com ele. De conversa fácil, muito amável e educado foi falando no seu stress e com o gere, na dificuldade que às vezes encontra no relacionamento com o irmão mais novo, nas desgraças que lhe vão acontecendo, mas sempre com bonomia, um sorriso nos lábios e um optimismo bom.

Fui eu que aprendi com ele e não o contrário. Quando me vim embora ficou triste. Vou voltar para  aprender, mais uma vez, que não temos de ser iguais e somos bonitos e bons nas nossas diferenças. Quer fazer uma vaso grande e bonito numa olaria. Vou ver se consigo encontrar uma e levá-lo.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Realidades que batem

 


Hoje ofereci ajuda a uma colega que está na escola pela primeira vez. Tem 27 anos e é geóloga como eu. Tinha uma consulta online e estava preocupada com o modo como podia atender o telefonema da médica em aula. Combinámos que eu iria estar em aula e quando o telemóvel tocasse, ela saía da sala e eu continuava. Assim foi.

Já conhecia a turma, um tanto ruidosa  à qual tinha dado umas aulas de substituição. 

Fiquei agradavelmente surpreendida com o clima de aprendizagem que ali fui encontrar com conteúdos sobre minerais que normalmente são rejeitados pelos alunos. A linguagem entre professora e alunos fluía de forma fácil e parecia tudo em equilíbrio. Alunos bem dispostos, um clima de aprendizagem bom o que foi demonstrado na aplicação de conhecimentos que veio logo a seguir através do classroom. 

Bateu de repente a ideia trágica de que realmente todos eles, professora e alunos, pertenciam à mesma geração. Separam-nos uns meros 15 anos. De mim, há a diferença de 50 anos! Tem de fazer a diferença!

E esta ideia de equilíbrio geracional é importante para a aprendizagem. 

Fiquei contente pelos alunos.  Muito pensativa quando saí e enquanto  descia lentamente as escadas. O que ando eu aqui a fazer?  O que tenho eu ainda para transmitir a esta geração de netos? Como vejo eu o mundo e as coisas? Será a certa? Como  pensam estes alunos sorridentes o seu futuro? Como será concretizado?

Andei todo o dia a pensar nisto! No desfasamento geracional que tanta indisciplina acarreta. Não será tudo diferente quando, daqui a quatro ou cinco anos, mais de metade dos docentes formos embora e formos substituídos?

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Para aqueles que estão a pensar ser professores

 


Vão em frente, sem medos. 

É uma profissão com um reforço positivo de outra índole. Marca-nos a alma. Não temos o chefe a dizer-nos que somos os maiores mas sentimo-nos os maiores através de sorrisos, de tímidos apertos de mão, de algumas conversas francas, de alegrias interiores quando sentimos que aquele aluno progrediu, começou a entender, começou a gostar, ganhou caminho como costumamos dizer. 

vão em frente! Vão ter dias péssimos onde quase nada faz sentido, mas dias maravilhosos em que nos sentimos apreciados e responsáveis por aqueles seres ainda em formação. 

Vão em frente e deliciem-se quando daqui a uns anos encontrarem os vossos alunos que vos cumprimentam com um " lembra-se de mim?"  nos sítios mais improváveis. Pode ser até o gabinete médico onde entrei o outro dia para encontrar uma antiga aluna super competente e super simpática e que de um momento para o outro o meu cérebro  trouxe sentadita na carteira, tímida e atenta. Tão diferente da mulher segura que ali estava à minha frente.

Vão em frente. Façam coisas diferentes. surpreendam os alunos, encham-se de mundo para lhes transmitirem, procurem juntos se for necessário. Riam com eles da vida, do dia a dia e das palermices.

Vão em frente e estejam atentos aos problemas deles. Mesmo aqueles que não se descobrem à primeira. Falem, procurem, transmitam a vossa opinião. 

Vão em frente e ensinem com qualidade. Aprendam muitas maneiras de dizer o mesmo porque há muitos modos de aprender. 

Vão ver que terão uma vida cheia. 

Continuando...

 


Os alunos sabem muito bem quem se importa com eles e quem os respeita. Não é necessário dizer nada. 

Não é necessário deixar de ser a autoridade  dentro da sala de aula. Há que haver um líder e tem de ser o professor. A liderança tem de ser segura e aumentar a confiança dos alunos. Nunca pedir nada que não se pratique. Foi uma dos elogios que uma mãe me fez num final de ano e de que nunca me esqueci: a professora nunca pediu nada a nenhum aluno que não fizesse primeiro. Se se pede a um aluno para ser pontual, o professor tem de ser pontual. Se se pede para entregar os trabalhos dentro do prazo estabelecido, também o professor o tem de fazer e por aí adiante. Nada de complexos de superioridade que não sejam assentes em sabedoria ou em saber estar e fazer. 

Ter tempo para os alunos. Conversar com eles quando ficam para trás nos intervalos.  Há sempre algo importante que querem transmitir. 

Ensinar pormenores mesmo que não estejam nas planificações. Muitas vezes é isto que fica. Tantas e tantas vezes que encontro alunos adultos que me contam histórias que lhes contei e de que já não me lembro! Ficou! Fez diferença. Isso é importante. 

Ensiná-los a falar em público. Dar-lhes regras práticas para um discurso oral sem falhas e que prenda a atenção dos ouvintes. Eles gostam tanto de experimentar e aprender e e verificar que dá certo. No futuro, esta competência ser-lhes-á tão útil!

Ensinar-lhes regras de organização escolar.  Como manter tudo sob controle nas diferentes disciplinas.  O uso do caderno de notas, calendário do telemóvel ou apenas o bloco de notas digital com lembretes. 

Ver em cada um um o potencial que eles não veem e partir sempre de cima. Pouco a pouco, eles percebem que são capazes.  Mesmo que não em todas as áreas do saber, em algumas delas. 

Adoro alunos. Do mais inteligente, super apoiado pela família, até àquele que chega a casa ao final do dia  e não tem ajuda de ninguém. O patamar não é igual. Cabe à Escola diminuir a diferença.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Sobre as medidas educativas

 


O outro dia, ao ouvir falar o ministro da educação, estava a pensar que todos eles deveriam passar um ano, pelo menos, na escola pública para saberem como funciona e, só depois, poderiam decretar medidas educativas para salvação do sistema. 

Tive a sorte de ter feito estágio integrado na Universidade de Coimbra com dois orientadores fora de série. Já com alguma idade, bons profissionais, todas as 4ª feiras nos reuníamos para falar e modificar tudo o que tinha corrido menos bem na semana anterior. Sem juízos de valor ou críticas íamos aprendendo que algumas das estratégias não funcionavam e outras, muito mais simples, funcionavam muito melhor. 

Não esquecer que lidar com crianças ou adolescentes não é o mesmo que lidar com papéis ou estar a resolver assuntos a uma secretária. Os alunos são pessoas em formação e temos de ter isso sempre em linha de conta. 

Depois deste ano não me considerei lançada "às feras"! Tinha ferramentas poderosas que com mais aprendizagem com os colegas mais velhos fui aprimorando e descobrindo. 

Enquanto Coordenadora de Departamento Curricular fiz sempre um pouco este papel com as colegas que chegavam sem nunca terem dado aulas. 

Se eu fosse o ministro o que diria neste momento da situação do ensino público?

1 - Os professores com mais tempo de serviço e mais perto da reforma poderiam ter a hipótese de ficarem a ajudar um grupo de colegas que estivessem pela primeira vez no ensino. Tanto para aprender! 

Não se grita quando há barulho na sala. Fala-se cada vez mais baixo e o ruído reduz.

 Quando há um aluno  mal comportado, chegamos perto dele. Se for necessário, permanecemos por um bocado continuando a aula junto dele.

 Os alunos não devem estar muito tempo a ouvir. Entremear uma explicação curta com tarefas exequíveis relativas ao que foi explicado. As tarefas podem não ser digitais. Os alunos gostam de escrever, de ler, de resolver.

 Em turmas com alunos com muitas dificuldades colocar tarefas escritas,  com um exemplo resolvido e a seguir tarefas repetitivas e com baixo grau de dificuldade de modo a fazê-los sentir que são capazes de a resolver. Nenhum aluno se motiva se a tarefa tiver um grau de dificuldade muito superior ao conhecimento adquirido. Pouco a pouco, ir aumentando a dificuldade mas mantendo o esquema. Seguir o método Kumon dá sempre bons resultados.

 Tratar os alunos sempre com respeito. São pessoas. Por serem mais novos, nada permite que não seja assim. Tentar perceber o porquê de certos comportamentos.  Por vezes, percebe-se que face à vida de cada um, até é muito bom naquilo que   faz e realiza um esforço titânico para estar ali e chegar onde chega. Cada aluno é um caso.

 Saber explorar o erro numa aula é uma ferramenta importantíssima que, muitas vezes, faz a diferença nas aprendizagens. Entrarem em silêncio nas aulas e saírem por filas para evitar aglomerados também transmite ordem e disciplina.

Ouvir o que têm a dizer os alunos. Aproveitar, sempre que possível, as suas contribuições e dar-lhes visibilidade. Aumenta a auto estima de cada um deles. 

Ensiná-los como se estuda a disciplina. Perceber quais os métodos de estudo que utilizam e como podem melhorá-lo.

Tudo isto podia ser ensinado por docentes com tarimba que passassem o seu testemunho às gerações que se quer que entrem mas não se lhes dá condições para  o fazerem com qualidade. 

2 - Aumentava significativamente o ordenado dos professores no primeiro escalão de modo a que  os jovens se tentassem, mais que não fosse,  pelo ordenado. Com um pagamento tão baixo, a escola pública não consegue atrair docentes de qualidade. 

3 - Um técnico superior por agrupamento para diminuir a burocracia? Coitado do técnico!!! Há que diminuir sim, mas doutro modo. As reuniões têm de ser diferentes, as atas de 18 páginas repetindo sempre a mesma coisa têm de ser reduzidas. Coloca-se na primeira acta a informação importante relativa a cada aluno e, só se mudar alguma coisa, se refere posteriormente. Contactos com os encarregados de educação? Se fica registado noutro suporte, para quê em acta? Projecto de Educação Sexual com número de aulas indicado em legislação? Então por que razão também não existe um de educação ambiental, outro de educação cívica, outro de educação emocional e por aí adiante? Não será que o perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (PASEO) terá já isto tudo contemplado?

4 -Tarefas classificatórias com respectivas rúbricas de avaliação para cada uma. Não seria muito mais simples, no início de cada ano, o aluno  ter em seu poder estes documentos e a partir daí, como avaliação contínua que é, poder ser avaliado sem mais documentos estafantes?

5 -Planificações- Diminuir a complexidade com a ajuda do que já existe no mundo digital. Se se adopta um livro, a planificação que vem com ele tem, com toda a certeza, muito a ver com o modo como decorre o ano e o trabalho que se desenvolverá. O trabalho prévio esteve na adopção do livro.

Muito mais há a dizer. Isto é só um começo.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Educar não é isto

 


Fui tomar  café e encontrei uma aluna, tímida, com um sorriso lindo e com vontade de aprender. Sorri para ela que estava meio escondida atrás da mãe uma senhora muito nova e decidida. 

Dei por mim a elogiar o comportamento e a motivação da filha  e ela a queixar-se que a filha não percebia nada de Matemática e ela também não conseguia ajudar porque não percebia nada daquilo!!!

Continuei motivando, indicando novos caminhos que actualmente existem e que, se ela quisesse, sempre é tempo de recuperar mesmo quando se sentem dificuldades porque era motivada e resiliente.

A mãe, do alto da sua sabedoria, respondeu: eu acabei o 12º ano na escola profissional e a muito custo. Detestava a escola e foi um grande alívio quando me vi livre dela!!

A aluna, atrás da mãe, olhou para mim, sorriu e pediu um gelado!

Assim se motivam os filhos para a aprendizagem! Talvez pela negativa! Quem sabe?

terça-feira, 21 de maio de 2024

O tempo passa

 


Gosto de fazer estas montagens de fotos porque me fazem lembrar de como eu era interiormente nesta idade tão jovem e em quem me tornei. Tinha o mundo todo pela frente e não fazia ideia da pessoa em que me tornaria ou quereria tornar. Vivia alegre e despreocupada no seio de uma família que sabia amparar e rir com a minha alegria. Era vivaça e gostava muito de rir. Nisso, estou igual! Tirei esta foto quando vim viver para Coimbra. Integrada numa turma de meninos bem como se chamavam na altura, a adaptação fez-se aos solavancos, mas fez-se. Aprendi novos códigos, observei outras vivências e arquivei pormenores que ainda hoje vivem comigo. Fiz amigas para a vida!

Depois, chegou a vida séria. Vim viver para uma pequena cidade onde não conhecia ninguém. No primeiro dia que me vi com um filho nos braços estremeci de medo. E agora? Desde aí passaram por mim e por ele 36 anos! Mudei o estilo, fiquei loira para sempre,  mas a burrice não me contagiou. Aprendi muito sobre a vida, os aborrecimentos, quando devia enfrentá-los e quando devia contorná-los. Sempre que foi necessário enfrentar, estive e estou sempre na linha da frente! A família no seu melhor com altos e baixos, doenças, medos, terrores a superar e aqui estamos.

Profissionalmente dei o meu melhor. Assumi muitos cargos, muitos projectos, muitas lutas, trabalhei com alunos brilhantes que hoje dão cartas por esse mundo fora e com outros alunos que, mesmo não parecendo, me surpreenderam imenso por tudo o que conseguiram e em quem se transformaram. São estas alegrias da profissão que só nós vemos. São o nosso estímulo. Tenho saudade de alguns. Há poucos dias, dei um grande abraço a um deles que não me saía do pensamento.  Dizia que eu era a segunda mãe dele! Como fiquei feliz ao vê-lo bem! Recordámos tempos passados, acabando por confessar que, nesses tempos, atravessava uma grande crise! Tão visível aos meus olhos!

Continuo a gostar de estar com alunos. Sinto a imaturidade deles e rio por dentro! Tudo tão passageiro, tão efémero! Daqui por uns anos logo se vê como pensam e como se veem.

A vida no seu melhor!

sábado, 27 de abril de 2024

Coisas que me aquecem o coração

 


Ontem tive de ir à NOS resolver um problema da box da casa da praia. No meio da conversa com a senhora de meia idade que me atendeu  disse-me que sabia bem o meu nome porque tinha sido professora dela há 34 anos! Acrescentou que de todos os professores só se lembrava de mim e que tinha sido professora de Ciências dela durante dois anos. Não consegui fazer a ponte mas ri-me interiormente com o que disse a seguir:

-Vestia-se tão bem e cheirava tão bem! Andava sempre com uns vestidos de flores tão bonitos!!! EU???? Flores? Vestidos??

Se ela não tivesse dito o meu nome e não fosse simpática ao dizer que estava na mesma (!!) eu teria pensado que me tinha confundido!! O que eu mudei! Só o perfume continua indispensável! Detesto roupa com padrão floral e vestidos nem é bom falar!

Quando cheguei ao parque de estacionamento ainda vinha a sorrir. É bom ser lembrada depois de tantos anos! Com vestidos de flores e bons perfumes ainda melhor!