segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Imagens que me emocionam

 


Todos recordamos a infância! A minha, cada vez mais, caminha comigo, dando-me  coragem para que, o que eu já vivi e vi, me façam seguir em frente com dignidade.

Este tempo  de Outono cheira a marmelada acabada de fazer em caldeirinha de cobre pelas mãos hábeis da minha mãe. Primeiro o marmelão com menos açúcar para ser comida mais rapidamente e depois a marmelada fina que haveria de chegar quase até à Primavera em malgas grandes cobertas com papel vegetal. 

Era o tempo de fazer todo o tipo de  outras compotas e o tempo de colocar ao sol,  em frascos, as misturas para os licores. 

Vejo o milho ao sol a secar em grandes toldos, agarrados uns aos outros por pedras e  vigiados pelos avós que, não podendo fazer muito esforço, se sentavam e afugentavam as galinhas que por ali andavam. À noite, recolhiam-se para as lojas  para reiniciar o processo na manhã seguinte.

No final do dia, quase ao anoitecer, levavam-se os burros a beber nas fontes. Esperava-se pacientemente que acabassem de matar a sede e voltavam para a palheira. Era quase sempre eu a fazer esta tarefa. 

Logo de seguida, ia buscar o leite  e havia dias em que tinha de esperar que o dono das cabras as acabasse de   ordenhar e a mulher coasse o leite para eu o trazer.

Pela manhã cedo, antes de começar a escola, iam apanhar-se as nozes que tinham caído durante a noite  para que ninguém as apanhasse. 

Vinha depois o tempo das castanhas! Muito trabalho depois de vir da escola! Trabalho chato mas necessário porque trazia muito dinheiro! Nessa altura, a mãe contratava uma "criada" como se dizia. Dormia lá em casa  e a função era  ajudar a  apanhar as castanhas. Era estranho ter uma pessoa que não era da família a viver o dia a dia connosco!

Chovia muito e o vento fazia-se sentir! Era aconchegante senti-los quando se estava a adormecer. Ainda não havia edredons e o peso dos cobertores era como uma armadura que nos protegeria  de tudo.

Rezava-se sempre antes de cada refeição - " Obrigada Senhor por nos dares de comer sem nós merecermos..." o que dava, algumas vezes, azo a discussões sobre o merecimento ou não, depois de um dia a trabalhar!

As galinhas andavam pelas ruas identificadas com laços de tecidos diferentes presos às asas. Quando se avistavam " passarões" a sobrevoar a aldeia todos recolhiam as galinhas. 

Não havia  mercearia na aldeia. Comíamos o que havia em casa e a mãe deslocava-se  uma vez de 15 em 15 dias a Gouveia para comprar bens como queijo flamengo, açúcar, manteiga, atum, etc. Coisas que a terra não dava. A verdade é que não necessitávamos o queijo flamengo mas as saudades que eu tenho daquele sabor! A mãe tinha duas tábuas, penduradas do tecto da loja, cheias de queijo da serra.  Não se comia todos os dias e durava quase todo o ano. A renda do casal era paga, metade em queijo e outra metade em dinheiro. O Padre Samuel era a pessoa na aldeia que tinha mais queijo. Tinha até uma divisão junto à garagem só para esse fim! Não me lembro se os comia todos mas seria quase impossível! No dia de Páscoa, em todas as casas em que havia rebanhos,  na visita Pascal era oferecido um queijo! Belos tempos!

Na loja também se penduravam as uvas em grandes cachos atados uns aos outros por cordel. Aguentavam-se e adocicavam para serem comidas no Natal.

A mãe e a avó tratavam de uma horta que se estendia por três arretos agarrados à casa. Semeavam cenouras, espinafres, cebolas, feijões, couves, morangos, alhos,  nabiças, etc. No cair da noite era o tempo da rega e de matar as lesmas com sal para que não comessem as folhas verdes. 

No meio disto tudo, havia ainda tempo para brincar. Tinha uma casa de bonecas montada no sótão onde dava largas à minha imaginação. Outras vezes, brincava nos balcões de trás, largos balcões de granito que davam acesso à horta. 

Hoje vejo que era uma criança solitária. Inventava as minhas histórias e as minhas fantasias! Muito observadora e muito ligada à família. A minha avó materna foi uma figura central na minha meninice pela paciência e pelo amor que sempre me demonstrou. Não por palavras mas por atenção e carinho. Ainda hoje, as palavras vãs sem gestos que as acompanhem não me dizem nada. 

Tanta coisa da minha infância! Que tempo de paz e de esperança de que tenho tantas saudades!

Nenhum comentário: