segunda-feira, 18 de março de 2024

O dia do pai é quando a filha quiser


 Meu querido pai! A falta que tu fazes aos meus dias! O teu olhar bastava para me sentir amada e acolhida. Éramos duas gotas de água e agora estou só eu.

 Sem grandes gestos de ternura mas com uma sensibilidade, um acolhimento, uma grandeza de carácter que todos os dias me fazem falta. 

Tinhas medo da morte e eu tinha muito medo de te perder. Até que partiste quase sem dar conta! Na véspera, ainda tentaste falar comigo mas eu não percebi e ainda  hoje tenho pena de não ter percebido!

Ensinaste-me tanta coisa da vida mas a mais importante talvez fosse a de me rir de mim própria como tu te rias das desgraças tentando fintá-las e continuar em frente. Conseguias sempre!

Ensinaste-me a viver o presente quando se nos apresenta. Não é o momento certo? Não importa. Vamos viver. Aprendi contigo a felicidade das pequenas extravagâncias. 

Ensinaste-me o valor do esforço, o valor do trabalho e a força de uma família. 

Ensinaste-me a dedicação  com que sempre te vi tratar a mãe  no início da sua doença.

Ensinaste-me que não vale a pena olhar para trás porque a vida segue em frente e o futuro nos espera. Podia ter sido de outro modo o passado mas já se foi e todos tomámos más decisões na vida e o que interessa é o saldo final ser positivo.

Ensinaste-me o riso, ou por outra, o sorriso contido quando nos tinhas todos por perto.

Ensinaste-me que a inteligência é uma boa lente para dela se ver a vida! E tu eras tão inteligente!

Ensinaste-me o valor dos bons momentos juntos, os almoços, os passeios, a torrada e o galão na pastelaria da esquina. São cimento na minha relação eterna contigo.

Ensinaste-me a educar. Austero no que valia a pena e benevolente na banalidade das coisas diárias como quando te entregava as folhas dos gastos da casa de Coimbra que tu sabias serem falsos e forjados na véspera.  

Vida dura a tua, pai! Tanto que te devo! Tanto que nem merecia!

Acredito que donde estás me guias os passos, me acompanhas e, muitas vezes, hás-de ter abanado a cabeça em sinal de discordância com os meus actos. Fazes- me falta para te confidenciar assuntos que me atormentam e eu sei que tu resolverias num instante com a tua sabedoria,  no teu falar pausado e mestre.

Tenho saudades dos abraços que não te dei! Dos beijos que ficaram na intenção. Dos elogios que não saíram do pensamento. Agora já sabes PAI  o quanto eu te amei em todos os dias da minha vida.

Homens e mulheres da Serra que vivem como granito escondendo a ternura que, sentem, os torna fracos!


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